

O assumido entrou na drogaria e disse que aquilo (rodopiando uma arma com uma das mãos) era um assalto. Pediu, desbocado, que as três caixas presentes lhes dessem todo o dinheiro, ouviram, todo o dinheiro! As caixas, acostumadas com esse tipo de abordagem, colocaram o dinheiro (todo ele) junto com alguns vidrinhos de rinosoro e anti-inflamatórios (e sem receita médica, o que é ilegal) numa sacola suspeita que o assumido lhes entregou. Passava das dez da noite, o assalto não durou nem cinco minutos. Um sucesso, concluiu então a caixa mais masculinizada que, depois da confusão toda, ajudava a recolher algumas cartelas de comprimidos de gripe espalhados pelo chão. As câmeras de vigilância da drogaria registraram todos os momentos do assalto; o material foi entregue à polícia para investigação. O assumido é, agora, um homem procurado.
Adoção
Uma das diferenças entre homens e mulheres, acredite, é que homens costumam ter pelos. As mulheres também têm, mas preferimos achar que não e, por isso mesmo, elas se depilam. Quando as axilas de uma mulher são peludas, dizemos que se parecem com as axilas de um homem. Rimos, fazemos cara de nojo ou botamos apelidos. Olha lá o Seu Armindo voltando das compras. É uma situação pavorosa que nenhuma mulher quer passar; mas me parece que alguns homens sim, fazem questão. Por isso depilam as axilas, o peito, a barriga; para que os desdentados em frente à fábrica no horário de almoço lhes chamem de Renatinha ou Dona Tatiana.

Ganhamos o selinho “blogue de veado” e estamos tão orgulhosos que resolvemos celebrar comendo bolinhos de bacalhau e fazendo uma maratona de filmes do Woody Allen lá em casa. Agradecemos a preferência, Suruboy, está convidado para a próxima bacalhoada com a Mia Farrow, mas antes, está bem, vamos responder isso aí.
Depois que o último garoto com quem estava saindo deixou de atender as ligações que ele lhe fazia no celular, Arthur disse chega de procurar, agora quero ser encontrado. Claro que ficando em casa à toa ninguém o encontraria, então ele começou a freqüentar o cinema e a locadora da avenida; vai que alguém o abordasse para perguntar se aquele filme dos chineses gays na Argentina era realmente bom. Arthur começou a assistir a muitos filmes nessa época, seu repertório de cinema aumentou tanto quanto se tornou mais frequente suas visitas a sites de homens fardados. Mas um dia Arthur recebe a ligação do antigo companheiro, dando a entender que queria voltar; e ele voltou. Arthur deixou de ir ao cinema com a mesma frequencia, ganhou alguns incontestáveis quilos a mais e começou a ter lapsos de memória, esquecendo-se, por exemplo, de que pousar óculos escuros acima da testa era algo bem cafona.

Site Gay Gratuito entrou na sala. Viu Young Twinks lhe fazer um sinal com dois de seus longos e cabeludos dedos para ele se sentar numa cadeira vaga que tinha logo ali, na sua frente, entre Famosos Nus e o belíssimo Quero Gozar na Cam. A palestra sobre Homossexualidade e Sustentabilidade, um sério compromisso, dada pelo célebre Milhares de Fotos e Videos – importantíssimo pesquisador do comportamento homossexual da Unicamp - já tinha começado há o quê? dez minutos?
O grande mal de nossa época é alegar que determinada coisa, qualquer coisa, é o grande mal de nossa época. Não é a angústia ou a solidão em grandes cidades, não é a depressão, a impotência sexual, a internet, as cirurgias plásticas, as varizes. Não. O grande mal de nossa época é alegar que determinada coisa, qualquer coisa, é o grande mal de nossa época.

Eu sugeri que fôssemos ao cinema ver o novo filme do Eduardo Coutinho ou, sei lá, que abríssemos o guia da Folha mesmo e procurássemos uma peça que estivesse passando na Praça Roosevelt, em algum Sesc, o que fosse; sabe que gosto de domingo, de aproveitar o domingo, que prefiro fazer qualquer coisa a desperdiçar o domingo só porque acordamos tarde e o almoço vai ficar pronto lá pelas cinco e pouco, enquanto isso deixa no jogo do brasileirão e me ajuda com a cebola porque já coloquei o arroz no fogo baixo. E quando falo que quero assistir a um filme, ver as gravuras do Mondrian na Pinacoteca, você sabe, estou querendo lhe agradar, deixo pra lá as minhas coisas, meus amigos, meu domingo, a mim mesmo, para ficar ao seu lado insistindo na mesma idéia de sair um pouco, de descobrir de que maneira o mundo está se acabando e se comendo lá fora, de ver se os poodles, como diz, tomaram conta da Augusta com a Fernando de Albuquerque. Mas nem pra dizer que não vai rolar, que prefere ficar em casa baixando filmes ou respondendo e-mail a sair por aí é capaz. Eu ainda pego emprestado o carro do meu irmão de idiota pra darmos uma volta e o mais longe que conseguimos chegar foi ao supermercado do shopping comprar umas frutas, uma garrafa de vinho chileno e papel higiênico, porque o de casa acabou, você sabe, e se deixássemos de passar no supermercado do shopping, não teríamos nada pra acompanhar a macarronada ou limpar a bunda, e isso e aquilo outro, bem depois de uma risadinha sua mal-intencionada no canto da boca, você não ia querer, não é? Dê mais de sua risadinha torta e faça também aquele passinho com os ombros encolhidos, olhos embriagados, todo miúdo e epiléptico, e quem sabe não te acompanho, não coloco um Seu Jorge, um Caetano, qualquer um desses que só agradam a você pra gente dançar gostoso, coladinho, se segurando um no outro, mais pra não perder o equilíbrio do que por querer fazer cena de casal apaixonado. Boca toda roxa a sua, não, toda ela. Passa a parte de trás da mão e vê se não está toda roxa. Não saiu ainda. Desse jeito, também, não vai sair mesmo. Eu me aproximei e colei minha língua em seus lábios, um minuto só, vai ver como sai assim, foi a metade da garrafa de vinho que tomou, um minuto só e você vai ver como isso sai.
Pedofilia
Há alguns meses, um sujeito chamado Virgil Griffith, teve a idéia de fazer um estudo científico determinando que tipo de música te deixaria imbecil. Ele pensou, certo dia: “loving this rubbish says a lot about someone and how much they got going on in their head”. O que ele desconfiava era que pessoas que escutavam porcarias deviam ter uma mente atrasadinha (para ficarmos no eufemismo); e isso, não é nenhuma idéia brilhante, vai.




No entanto, eu acabei perguntando. Quando voltou da sua misteriosa e apressada saída, acabei perguntando aonde ele tinha ido. Passava das onze, portanto mais de três horas em que ele havia saído sem me dizer aonde ia. A primeira coisa que ele fez quando chegou em casa, no entanto, foi tirar os tênis, depois jogou o celular em cima do sofá, e depois, então, olhou pra mim, sem se aproximar, da mesma distância em que arremessou o celular no sofá e tirou os tênis, para me dizer, quase no mesmo instante, como se tivesse ensaiado, que tinha passado na sua casa para visitar a mãe e ver os irmãos. Comeu lá também, desculpa, disse. Ficou descalço. Desceu o zíper do moletom enquanto ia caminhando, sem jeito, robótico, ao banheiro, tomar um banho, porque se além do jantar ele tivesse tomado banho em casa, imagina, ia ter que dormir por lá também. Conhece as crises da mãe que tem.
Os que ficam irritadinhos quando vêem alguém falando em “opção sexual”, ou quando uma semi-celebridade diz “homossexualismo” na televisão, ou no rádio, ou no pacote de sucrilhos.
O menino mais lindo do mundo faz filme pornô. Eu vi, ele estava sentado, de roupa, descalço, numa cama de casal, enquanto o câmera, que devia ser o diretor, e o dono do site, e o camareiro, fez algumas perguntas que esses diretores costumam fazer para meninos lindos que têm diante de si. I’m from Massachusetts, ele disse, então. O menino mais lindo do mundo vem de Massachusetts. O tipo de garota que ele mais gosta são as selvagens, as que possuem iniciativa, ele disse, então, em inglês, com o sotaque de Massachusetts, e todo tímido. Ok, disse o diretor em determinado momento; e então o menino tirou toda a roupa e olhou para a câmera como se a câmera fosse o pai dele querendo lhe dar uma cintada na bunda por comportamento feio, muito feio. Mas, aos poucos, o menino mais lindo do mundo foi ficando à vontade, e vamos descobrindo com que é que ele brinca tanto no meio das pernas. Metade de um homem aparece na cena, em pé, fora da cama. O menino mais lindo do mundo toca nele, o homem retribui com beijos, com chupadas, até o momento em que o coloca com as pernas para o ar na tentativa de ter uma relação mais íntima, mais profunda, com ele. O menino mais lindo do mundo faz filme pornô, tem vinte e dois anos, se chama Joey e vem de Massachusetts.
Todo garboso ele me disse que era um cara fora do meio. Não soube me explicar muito bem o que seria isso; mais por não saber explicar coisa alguma do que por qualquer outro motivo, mas tento reproduzir, ainda assim, de acordo com o que ele me disse naquele dia, uma idéia, talvez vaga, de um cara fora do meio.
O homem perdeu o controle do pára-quedas (sem acordo ortográfico, na época) e caiu no telhado de um casarão da Urca. Um homem barbudo (depois fiquei sabendo que se chamava Marcelo Camelo ou coisa assim), correu para ajudá-lo com aquelas varas para tirar folhas e insetos da piscina. Mallu Magalhães, uma linda menina de treze anos, no máximo, disse para Camelo que o homem estava inconsciente. Se ele não fosse resgatado dentro de poucos minutos (segundos, talvez), corria o risco de cair de uma altura de quase cinco metros e, poderia, sem dúvida, sem dúvida, vir a falecer – como disse uma loira chamada Angélica, naquele momento cobrindo os olhos de duas crianças com suas delicadas e finíssimas mãos. Luciano Huck, Chico Buarque, Paulo Coelho e um barbudinho de óculos redondos apareceram com um colchão e o colocaram onde Caetano, por seus cálculos, disse onde o homem deveria cair. Não deu vinte e seis segundos e o homem do pára-quedas caiu exatamente no meio do colchão, com os braços abertos que nem Cristo Redentor, como foi bem observado por Fernanda Torres naquele momento. Depois de olharem os braços abertos do Cristo Redentor no alto do Corcovado, voltaram os olhos ao homem do pára-quedas, que estava, acreditavam, retomando consciência. Chico colocou o Leite Derramado dobrado debaixo da cabeça do homem como se fosse um travesseiro e quando ia começar a fazer respiração boca-a-boca, Angélica, a loira, mandou seus filhos entrarem pra dentro. O homem já estava consciente; pelo menos tinha os olhos abertos e começava a falar.
Ao se levantar me deu um beijo perto dos olhos, sem dizer nada, para eu não perguntar nada; aonde ele ia e porque estava se vestindo com tanta pressa se não tinha compromisso algum marcado naquela noite, pelo menos não que eu me lembrasse, forcei-me por lembrar, sabia que sua mãe estava meio doente, mas ele mesmo acreditava, sem acreditar, na doença das pernas dela, porque quando as pernas dela doíam assim, coincidia com as duas semanas de ausência dos três filhos em casa. E não perguntei nada também, porque aquilo podia ser coisa de família; se fazer de preocupado, se vestir com tanta pressa como se tivesse um compromisso urgente podia ser coisa hereditária, herdada do avô por parte de mãe.
Eu não sei o que Daniel viu naquele homem mais velho de japona alaranjada e barbicha triangular no queixo. O homem deve ter alguma coisa de extraordinário que sua japona alaranjada não me deixa entrever. Algo que eu não tenho, ou algo que Daniel não foi capaz de perceber em mim, mesmo eu tendo me mostrado tão abertamente, por assim dizer, com transparência. Daniel pode não ter reconhecido em mim algo que reconheceu naquele homem de japona alaranjada e barbicha restrita a um pequeno triângulo no meio do queixo. Posso não ser tão claro quanto achei que pudesse ser, pelo menos não o suficiente para Daniel me entender minimamente. Ou Daniel possui uma muito débil percepção do mundo e, principalmente, de mim, ou o homem de japona alaranjada que vi do outro lado da rua possui alguma coisa de extraordinário que sua barbicha triangular no meio do queixo torne qualquer um incapaz de perceber.
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