roubo

11 de novembro de 2009

o assumido

9 de novembro de 2009

O assumido entrou na drogaria e disse que aquilo (rodopiando uma arma com uma das mãos) era um assalto. Pediu, desbocado, que as três caixas presentes lhes dessem todo o dinheiro, ouviram, todo o dinheiro! As caixas, acostumadas com esse tipo de abordagem, colocaram o dinheiro (todo ele) junto com alguns vidrinhos de rinosoro e anti-inflamatórios (e sem receita médica, o que é ilegal) numa sacola suspeita que o assumido lhes entregou. Passava das dez da noite, o assalto não durou nem cinco minutos. Um sucesso, concluiu então a caixa mais masculinizada que, depois da confusão toda, ajudava a recolher algumas cartelas de comprimidos de gripe espalhados pelo chão. As câmeras de vigilância da drogaria registraram todos os momentos do assalto; o material foi entregue à polícia para investigação. O assumido é, agora, um homem procurado.

adoção, Thom Yorke e versatilidade

3 de novembro de 2009
Adoção

Um homem casado com outro homem adotou uma linda criança rechonchuda e rosada. Um dia, enfiou-lhe na boca uma mangueirinha de onde saía gás hélio. Tapou-lhe todos os orifícios com jornal ou pano úmido e, por encanto, a criança começou a flutuar. A ponta de um barbante foi amarrada numa das perninhas dela e a outra no delicado e finíssimo pulso de um dos homens, que desfilava pela praça de alimentação de um shopping a procura de um bom lugar para almoçar.

Thom Yorke

Thom Yorke, quando está triste, manda um SMS para um amigo (antigo namorado) dizendo “I feel I’m getting old, you know”. O amigo, no dia seguinte, de madrugada, entra na casa do Thom Yorke com a cópia da chave que ele ainda tem. Sem fazer barulho, e com toda a discrição do mundo, coloca uns chocolates e pirulitos debaixo do travesseiro dele, sem que Thom Yorke perceba. No dia seguinte o amigo de Thom Yorke recebe um SMS em que está escrito “So gay now :D”

Versátil

Atualize-se. Na época em que os gays usavam bigodes e cavanhaques, dizia-se que isso se chamava relativo. O tempo passou, os bigodes envelheceram, os cavanhaques estão mofados e esquecidos num armário junto com o livro de estudos sociais da segunda série e, então, isso passou a se chamar flexível. Neste momento em que escrevo, ainda chamam por aí de versátil. Ao que parece, logo, será dinâmico, inconstante ou polivalente, quem sabe.

uma das diferenças

28 de outubro de 2009
Uma das diferenças entre homens e mulheres, acredite, é que homens costumam ter pelos. As mulheres também têm, mas preferimos achar que não e, por isso mesmo, elas se depilam. Quando as axilas de uma mulher são peludas, dizemos que se parecem com as axilas de um homem. Rimos, fazemos cara de nojo ou botamos apelidos. Olha lá o Seu Armindo voltando das compras. É uma situação pavorosa que nenhuma mulher quer passar; mas me parece que alguns homens sim, fazem questão. Por isso depilam as axilas, o peito, a barriga; para que os desdentados em frente à fábrica no horário de almoço lhes chamem de Renatinha ou Dona Tatiana.

blogue de veado

24 de outubro de 2009

Ganhamos o selinho “blogue de veado” e estamos tão orgulhosos que resolvemos celebrar comendo bolinhos de bacalhau e fazendo uma maratona de filmes do Woody Allen lá em casa. Agradecemos a preferência, Suruboy, está convidado para a próxima bacalhoada com a Mia Farrow, mas antes, está bem, vamos responder isso aí.

SuruboyComo é o homem ideal para você?

Guy Franco - Ah, ele é lindo. Não faz academia e tem um corpão. É importante isso dele não fazer academia. Ele até tentou, mas tinha preguiça, sabe. Prefere ficar na varanda lendo Tolstoi, com os pés descalços apoiados numa cadeira enquanto bebe um suco de maracujá. Depois ele dorme. Adora dormir. Eu falo pra ele se levantar e dormir no quarto, que é mais confortável e tudo, mas ele faz um gesto de “xá pra lá” com uma das mãos, de olhos fechados e um sorriso que por pouco não mostra os dentes.

SuruboyPoderia citar cinco filmes que foram importantes de alguma forma pra você?

Guy Franco – Eu poderia, mas não sei se devo. Estou visualizando um menino fumante respondendo que essa é uma “tarefa difícil” e que “toda lista comete injustiças”. Quem é ele? Alguém fala pra ele tirar a camisa xadrez porque não combina com os pelos expostos das pernas.

SuruboyVocê se arrepende de alguma coisa que fez?

Guy Franco - Sim, várias. (Cadê o menino fumante pra nos dizer que “não se arrepende de nada” ou “pior é se arrepender do que não fez”)? Uma vez, na quinta-série, durante o recreio, desenhei na lousa uma bola com braços, pernas e o que seria uma cabeça. Quando a Ju entrou na sala, apontei para a lousa e disse que tinha feito o desenho em sua homenagem. A Ju chorou, correu e me denunciou para a professora. Eu me arrependo de ter falado que era eu quem tinha feito o desenho dela. Também me arrependo de ter mijado na pia do banheiro da escola naquele mesmo ano. Não precisava.

SuruboyTem alguma coisa que você não suporta, assim, não suporta mesmo?

Guy Franco - Sorvete de creme. Eu ia responder suco de milho ou o uso excessivo de pontos de exclamação numa única frase, mas vai sorvete de creme.

Suruboy Que estação de metrô mais gosta?

Guy Franco – Sei que não é a Vila Madalena nem a Barra Funda.

SuruboySe pudesse escolher entre um CD, Vinil e MP3, o que você seria?

Guy Franco - Isso aí me cheira a MTV e é uma pegadinha que eu sei. A pergunta é formulada de maneira que o entrevistado escolha o vinil. Nessa eu não caio. Não vou escolher o vinil. A pessoa que escolhe o vinil está entrando no mesmo saco de cabeludos que vendem instrumentos musicais na Teodoro de Sampaio ou cantores que são barbudinhos porque do contrário seriam tidos por mulheres de tão delicadas e sensíveis que são as letras de suas músicas. Eu escolheria, por eliminação, o CD. MP3 tem algo de menina que se veste de rosa, algo de hello kitty.

chega de procurar, agora quero ser encontrado

21 de outubro de 2009
Depois que o último garoto com quem estava saindo deixou de atender as ligações que ele lhe fazia no celular, Arthur disse chega de procurar, agora quero ser encontrado. Claro que ficando em casa à toa ninguém o encontraria, então ele começou a freqüentar o cinema e a locadora da avenida; vai que alguém o abordasse para perguntar se aquele filme dos chineses gays na Argentina era realmente bom. Arthur começou a assistir a muitos filmes nessa época, seu repertório de cinema aumentou tanto quanto se tornou mais frequente suas visitas a sites de homens fardados. Mas um dia Arthur recebe a ligação do antigo companheiro, dando a entender que queria voltar; e ele voltou. Arthur deixou de ir ao cinema com a mesma frequencia, ganhou alguns incontestáveis quilos a mais e começou a ter lapsos de memória, esquecendo-se, por exemplo, de que pousar óculos escuros acima da testa era algo bem cafona.

Site Gay Gratuito

9 de outubro de 2009

Site Gay Gratuito entrou na sala. Viu Young Twinks lhe fazer um sinal com dois de seus longos e cabeludos dedos para ele se sentar numa cadeira vaga que tinha logo ali, na sua frente, entre Famosos Nus e o belíssimo Quero Gozar na Cam. A palestra sobre Homossexualidade e Sustentabilidade, um sério compromisso, dada pelo célebre Milhares de Fotos e Videos – importantíssimo pesquisador do comportamento homossexual da Unicamp - já tinha começado há o quê? dez minutos?

- Vinte. – disse Young Twinks fazendo biquinho como se fosse um ponto de exclamação.
Famosos Nus olhou pra trás com cara feia, balançando a cabeça como se agita uma batida de maracujá; uma maneira delicada de pedir silêncio sem fazer “shh” ou “psiu” ou “vamos calar a boca aí”.

Site Gay Gratuito assistiu à palestra compenetrado, diria ele se perguntado por alguém que se importasse com isso. Mas não entendeu assim, vai, tão bem a parte da projeção de Power Point que mostrava um bonequinho preto com o indicador levantado e uma lâmpada acesa sobre sua cabeça, ao lado de um gráfico que relacionava o aumento da preocupação com o meio-ambiente com o crescimento de homossexuais assumidos.

Quando a palestra terminou Young Twinks foi falar direito com Site Gay Gratuito:

- Foda, né?
- Foda.
- Vamos esperar todo mundo ir embora pra falar com o Milhares de Fotos. Quero apresentar aquele meu projeto de levar a cultura homossexual para crianças carentes que montei com o Homens Peludos e o Negros Dotados.

Mas Milhares de Fotos era muito célebre, com muitos fãs; uma pequena fila começou a se formar em frente à sua mesa. A maioria de seus fãs queria lhe dar os parabéns, associando muito mal trechos da palestra com autores que não faziam o menor sentido de serem citados ali, como Nietzsche, Foucault ou Quentin Tarantino. Quando chegou a vez de Suruba de Machos, que estava tirando meia dúzia de folhas de papel sulfite de uma pastinha dos 101 dálmatas, Milhares de Fotos disse que precisava ir embora por causa do rodízio, mas que qualquer coisa, era só mandar um e-mail para o endereço que estava na lousa com o assunto Homossexualidade e Sustentabilidade, um sério compromisso, que ele responderia a todos, com mais tranqüilidade, em casa. Claro que Young Twinks estava decepcionado. Era possível ver sua decepção se manifestando nos cotovelos, que se batiam contra a cintura, lhe dando um aspecto de um gringo que quer aprender a sambar, mas não bebeu caipirinha suficiente para isso.

- Vamos que a gente cola no carro dele – disse Site Gay Gratuito puxando a camiseta de Young Twinks pela manga.

Seguiram pelo corredor das Letras quando encontraram Punhetas, toda desgrenhada, suando, correndo na direção contrária.

- E a palestra do Milhares de Fotos e Vídeos? – ela perguntou.
- Já era.
- Não acredito!
- Você tá mais de uma hora atrasada, Punhetas. – disse Site Gay Gratuito dando um sorrisinho venenoso.
- Vamos, senão vai ser a gente que vai perder ele. – disse Young Twinks com olhos enormes.

Chegando ao estacionamento conveniado da faculdade não viram Milhares de Fotos. Também não sabiam que carro ele tinha. Os cotovelos de Twinks iam começar a se bater na cintura quando Site Gay Gratuito gritou do outro lado do estacionamento o que poderia muito bem ser o nome de Young Twinks, mas que pela distorção daquele barulho todo da rua, soou como “Biscoito” ou “Perfume”. Young Twinks correu até Site Gay Gratuito. Viram Milhares de Fotos e Vídeos dentro de um carro branco, dando um papelzinho a um cara do estacionamento e, em seguida, desaparecendo pela Avenida Contos Eróticos.

Young Twinks culpa Punhetas por esse desencontro até hoje.

o grande mal de nossa época

7 de outubro de 2009
O grande mal de nossa época é alegar que determinada coisa, qualquer coisa, é o grande mal de nossa época. Não é a angústia ou a solidão em grandes cidades, não é a depressão, a impotência sexual, a internet, as cirurgias plásticas, as varizes. Não. O grande mal de nossa época é alegar que determinada coisa, qualquer coisa, é o grande mal de nossa época.

roxa

5 de outubro de 2009

Eu sugeri que fôssemos ao cinema ver o novo filme do Eduardo Coutinho ou, sei lá, que abríssemos o guia da Folha mesmo e procurássemos uma peça que estivesse passando na Praça Roosevelt, em algum Sesc, o que fosse; sabe que gosto de domingo, de aproveitar o domingo, que prefiro fazer qualquer coisa a desperdiçar o domingo só porque acordamos tarde e o almoço vai ficar pronto lá pelas cinco e pouco, enquanto isso deixa no jogo do brasileirão e me ajuda com a cebola porque já coloquei o arroz no fogo baixo. E quando falo que quero assistir a um filme, ver as gravuras do Mondrian na Pinacoteca, você sabe, estou querendo lhe agradar, deixo pra lá as minhas coisas, meus amigos, meu domingo, a mim mesmo, para ficar ao seu lado insistindo na mesma idéia de sair um pouco, de descobrir de que maneira o mundo está se acabando e se comendo lá fora, de ver se os poodles, como diz, tomaram conta da Augusta com a Fernando de Albuquerque. Mas nem pra dizer que não vai rolar, que prefere ficar em casa baixando filmes ou respondendo e-mail a sair por aí é capaz. Eu ainda pego emprestado o carro do meu irmão de idiota pra darmos uma volta e o mais longe que conseguimos chegar foi ao supermercado do shopping comprar umas frutas, uma garrafa de vinho chileno e papel higiênico, porque o de casa acabou, você sabe, e se deixássemos de passar no supermercado do shopping, não teríamos nada pra acompanhar a macarronada ou limpar a bunda, e isso e aquilo outro, bem depois de uma risadinha sua mal-intencionada no canto da boca, você não ia querer, não é? Dê mais de sua risadinha torta e faça também aquele passinho com os ombros encolhidos, olhos embriagados, todo miúdo e epiléptico, e quem sabe não te acompanho, não coloco um Seu Jorge, um Caetano, qualquer um desses que só agradam a você pra gente dançar gostoso, coladinho, se segurando um no outro, mais pra não perder o equilíbrio do que por querer fazer cena de casal apaixonado. Boca toda roxa a sua, não, toda ela. Passa a parte de trás da mão e vê se não está toda roxa. Não saiu ainda. Desse jeito, também, não vai sair mesmo. Eu me aproximei e colei minha língua em seus lábios, um minuto só, vai ver como sai assim, foi a metade da garrafa de vinho que tomou, um minuto só e você vai ver como isso sai.

webcam, pedofilia e insetos

2 de outubro de 2009
Pedofilia

Um professor de matemática se apaixonou por um aluno do nono ano. O aluno do nono ano também se apaixonou por ele. O professor de matemática, muito discreto, levava o aluno do nono ano para sua casa sem que ninguém desconfiasse de nada. Quando o aluno do nono ano completou a chamada maioridade, saiu de casa e foi morar com o professor.

Opção Sexual

Caminhando onze ou doze anos pela mesma estradinha de pedras irregulares, encontrou uma bifurcação. De um lado a mesma estradinha de pedras irregulares; do outro, um caminho dificultado por um terreno muito íngreme e escorregadio. O último, pelo menos, era cheio de florzinha.

Insetos

Se todos os insetos do mundo se transformassem em hamsters, de um momento para o outro, seria o fim do mundo.

Webcam

Vemos a imagem de um homem que não mostra o rosto, sem camisa e uma tatuagem de um tribal num dos braços. Há momentos em que ele digita alguma coisa no teclado e momentos em que ele acaricia o volume sob a cueca. Nos momentos em que ele acaricia o volume sob a cueca, ele se afasta um pouco mais da câmera e podemos, por um instante, ver um pedaço de sua primorosa boca. Mas aí é tarde, porque você já tinha visto a tatuagem de tribal num dos braços.

Masturbação

Quando um homem se masturba com as mãos, um pouquinho de homossexual ele é. Se ele fosse heterossexual de verdade, se friccionava contra o colchão ou qualquer outra superfície que não o comprometesse tanto quanto uma mão peluda.

coisas que te fazem gay

26 de setembro de 2009
Há alguns meses, um sujeito chamado Virgil Griffith, teve a idéia de fazer um estudo científico determinando que tipo de música te deixaria imbecil. Ele pensou, certo dia: “loving this rubbish says a lot about someone and how much they got going on in their head”. O que ele desconfiava era que pessoas que escutavam porcarias deviam ter uma mente atrasadinha (para ficarmos no eufemismo); e isso, não é nenhuma idéia brilhante, vai.

Tudo o que ele teve que fazer, na verdade, foi reunir as bandas e músicas mais populares e fazer uma pesquisa em centenas de escolas, relacionando o desempenho dos alunos com o tipo de música que eles ouvem. O resultado foi este. Ele fez o mesmo com livros (ou algo parecido com isso, em alguns casos), e ele encontrou isto.

Há alguns meses, também, fizemos um estudo muito parecido. Pensamos: “loving this rubbish says a lot about being gay”, e então, seguindo a mesma idéia de Virgil, fizemos uma pesquisa de quais artistas (ou algo parecido) te fariam gay. Pela internet mesmo, por sites de relacionamento mesmo, entramos nos perfis de centenas de gays e fizemos uma relação do que eles gostavam. O resultado é esse aí embaixo. Mas antes, três notinhas:

(1) O teste foi feito exclusivamente com homens, e só funciona com homens, mesmo entre aqueles que dificilmente notamos ser um.

(2) Quanto mais para a esquerda da tabela, mais coisa de gay é, quanto mais para a direita, claro, menos. Mas se algo está na lista, é porque qualquer coisa de gay ele tem.

(3) Estar mais para a esquerda da tabela não significa necessariamente que mais gays gostem daquilo, mas que mais exclusivamente para gay aquilo é.



Isto aqui é PJ Harvey, aquilo ali é Lady GaGa

22 de setembro de 2009



Guy:
E isto aqui, o que é? (chacoalhando uma caixinha de CD)
Edgar: PJ Harvey, o outro é Lady GaGa.
Guy: Pi o quê?
Edgar: Jay Harvey. O Lady GaGa não é meu, é do Alex.
Alex: (sorrindo) Gosta de Lady GaGa?
Guy: Preciso ouvir pra ter certeza que não. O que é isso na cara dela?
Alex: Maquiagem, eu acho. (tira o CD da mão de Guy) Vou colocar pra você ouvir.
Guy: Não precisa. Queria comer, sério.
Edgar: Só falta preparar a salada. Não preparei ainda porque ia murchar antes de você chegar.
Alex: Vou colocar a primeira faixa, acho que você conhece, todo mundo conhece.
Guy: Não precisa, Alex. Só tenho fome mesmo.
Alex: (olhando para Guy e começando a remexer os ombros) Você conhece, certeza.
Guy: (prestando a atenção na música) É, acho que conheço. Tocava muito quando eu ainda via sentido em boate, isso há uns cinco ou seis anos.
Alex: Impossível, essa música é deste ano.
Guy: Ah! Claro que é, Alex, claro que é. Edgar, não precisa se preocupar com a salada, gosto sem tempero mesmo.
Alex: (meio indignado) Juro! Essa música não existia há cinco ou seis anos.
Edgar: Acabou o pepino.
Alex: A Lady GaGa devia assistir a Sakura Card Captors naquela época.
Edgar: Meu Deus, acabou o pepino!
Guy: Consigo viver sem pepino. Estou vivendo há meses sem pepino, anos talvez.
Edgar: Então vai sem pepino mesmo. Só preciso cortar a cebola.
Alex: (coloca na quarta faixa do CD) Vê se conhece.
Guy: Conheço, já disse.
Alex: É outra.
Guy: É a PJ?
Alex: Não, é a Lady GaGa ainda.
Guy: Você acabou de dizer que era outra, meu anjo.
Edgar: (cortando a cebola e cantando ao mesmo tempo) Can remind, can remind.
Alex: (virando os olhos) É can’t read mind, can’t read mind, na verdade.
Edgar: Oh! Põe agora PJ Harvey pro Guy conhecer.
Guy: É aquela mulher que quebra tudo numa quitanda, essa PJ Harvey?
Alex: (franzindo a testa) Quem?
Guy: Não tem uma cantora que quebra tudo numa quitanda?
Edgar: Se tem não é a PJ Harvey.
Guy: Pena, por essa aí eu me interessaria. Uma mulher que atira melancias na rua, com uma colméia na cabeça.
Alex: Amy?
Guy: Não lembro com que letra começa o nome dela. Acho que é brasileira, meio cariada.
Alex: É a Amy que você tá falando. Não gosto de Amy.
Guy: Uma mulher que quebra tudo numa quitanda deve fazer uma música razoável, fico pensando.
Alex: E ela não é brasileira.
Guy: Bem que achei estranho uma cantora brasileira com fúria. Cantora brasileira não tem fúria. O que é muito ruim, por sinal, muito ruim.
Edgar: Gente, tá pronto.
Guy: Preciso lavar as mãos.

quando voltou

17 de setembro de 2009

No entanto, eu acabei perguntando. Quando voltou da sua misteriosa e apressada saída, acabei perguntando aonde ele tinha ido. Passava das onze, portanto mais de três horas em que ele havia saído sem me dizer aonde ia. A primeira coisa que ele fez quando chegou em casa, no entanto, foi tirar os tênis, depois jogou o celular em cima do sofá, e depois, então, olhou pra mim, sem se aproximar, da mesma distância em que arremessou o celular no sofá e tirou os tênis, para me dizer, quase no mesmo instante, como se tivesse ensaiado, que tinha passado na sua casa para visitar a mãe e ver os irmãos. Comeu lá também, desculpa, disse. Ficou descalço. Desceu o zíper do moletom enquanto ia caminhando, sem jeito, robótico, ao banheiro, tomar um banho, porque se além do jantar ele tivesse tomado banho em casa, imagina, ia ter que dormir por lá também. Conhece as crises da mãe que tem.

Como não podia fechar a porta do banheiro, como já não era mais capaz de fechar a porta do banheiro, tirou as duas peças de roupa que lhe faltavam na minha frente, mas de costas, e de propósito. As duas peças foram colocadas em cima da tampa da privada, meio de qualquer jeito mesmo. E, ainda de costas, abriu o vidro do box, fechou o vidro do box, ligou o chuveiro, molhou os cabelos. Lá de dentro resmungou qualquer coisa, mas eu não sabia se era comigo ou com o sabonete que procurava com uma das mãos, de olhos fechados. Tirei toda a minha roupa e a deixei no corredor, meio de qualquer jeito também. Abri o vidro do box, fechei o vidro do box, encostei-me à parede, com as mãos pra trás para não sentir o gelado do azulejo nas minhas costas. Aproximei meu queixo da sua nuca sem me desgrudar da parede. Ele jogou a cabeça para trás, abrindo o pescoço; o mesmo gesto que se faz para aproveitar a água que cai no corpo, no peito, ou como se sentisse um arrepio, como se tivesse sido estimulado pela barba malfeita que lhe roçava a nuca. Não me olhava mais, mas desde quando voltou da sua misteriosa e apressada saída, na verdade, não me olhava direito; foi direto ao banheiro tomar um banho, deixou a porta aberta porque já não era mais capaz de fechar a porta do banheiro na minha cara, não era mais capaz de olhar na minha cara.

Estes banhos tendem a ser mais demorados do que os banhos comuns, mas são dois corpos que se limpam de uma vez, eu disse, ou pensei haver dito.

Gays from the seventh level

14 de setembro de 2009
Os que ficam irritadinhos quando vêem alguém falando em “opção sexual”, ou quando uma semi-celebridade diz “homossexualismo” na televisão, ou no rádio, ou no pacote de sucrilhos.

Os que se fotografam com a câmera ligeiramente acima de suas cabeças com cara de hominho. Os descamisados que tiram fotos no banheiro com a câmera na frente do rosto para chamar a atenção do resto.

Os velhos que se definem “boa pinta”. Os velhos que escrevem em Caps Lock. Os velhos que usam boné pra trás e relógio no pulso. Qualquer um que use relógio de pulso. Qualquer um que use qualquer coisa no pulso.

Os “de boa” e os “descomplicados”.

Os que procuram uma “boa pegada” e os que dizem ter uma “boa pegada”. Os que não conseguem terminar uma frase sem usar “sussa” ou variável. Os que te chamam de “brow” ou “véi” ou “fera” e esperam que você vire a cara porque ele falou com você.

Os exaltados que comparam Lady GaGa à Britney Spears. Os exaltados que compram Lady GaGa e Britney Spears.

Os que procuram uma “batida perfeita”, os que procuram a “felicidade”. Os que dizem não procurar nada “porque não perdeu nada”, e os que não procuram nada, mas “deixa rolar”.

Os que te perguntam o que curte (na cama). Todos os que conjugam o verbo curtir no lugar de gostar. Os que te perguntam do que está “afim” e ainda te corrigem quando você escreve “a fim” separado.

Quem procura uma “real”.

Quem diz que se definir é se limitar.

Os que montam blogs com imagens de homens alados. Todos os homens que se deixaram ser photoshopados com asas. Tatuagem de asas nas costas. Tatuagem de estrelas em qualquer parte do corpo.

Aquele que de dentro do “meio”, procura alguém de “fora do meio”.

Os que avaliam um filme pela quantidade de sustos que tomam, pela quantidade de risadas que dão e pela quantidade de vezes que choram. Os que assistiram ao “The Bubble” e amaram porque além de terem chorado muito, “mostra a realidade”. Os que vêem filme com temática gay feito em Israel, ou Austrália, ou Canadá e acham bons.

Os “prefiro muito mais um barzinho tranquilo, uma coisa mais caseira, do que uma balada”.

Os que perguntam se você leu "O Terceiro Travesseiro". Os que perguntam se você chorou lendo "O Terceiro Travesseiro".

o menino mais lindo do mundo

11 de setembro de 2009
O menino mais lindo do mundo faz filme pornô. Eu vi, ele estava sentado, de roupa, descalço, numa cama de casal, enquanto o câmera, que devia ser o diretor, e o dono do site, e o camareiro, fez algumas perguntas que esses diretores costumam fazer para meninos lindos que têm diante de si. I’m from Massachusetts, ele disse, então. O menino mais lindo do mundo vem de Massachusetts. O tipo de garota que ele mais gosta são as selvagens, as que possuem iniciativa, ele disse, então, em inglês, com o sotaque de Massachusetts, e todo tímido. Ok, disse o diretor em determinado momento; e então o menino tirou toda a roupa e olhou para a câmera como se a câmera fosse o pai dele querendo lhe dar uma cintada na bunda por comportamento feio, muito feio. Mas, aos poucos, o menino mais lindo do mundo foi ficando à vontade, e vamos descobrindo com que é que ele brinca tanto no meio das pernas. Metade de um homem aparece na cena, em pé, fora da cama. O menino mais lindo do mundo toca nele, o homem retribui com beijos, com chupadas, até o momento em que o coloca com as pernas para o ar na tentativa de ter uma relação mais íntima, mais profunda, com ele. O menino mais lindo do mundo faz filme pornô, tem vinte e dois anos, se chama Joey e vem de Massachusetts.

fora do meio

9 de setembro de 2009
Todo garboso ele me disse que era um cara fora do meio. Não soube me explicar muito bem o que seria isso; mais por não saber explicar coisa alguma do que por qualquer outro motivo, mas tento reproduzir, ainda assim, de acordo com o que ele me disse naquele dia, uma idéia, talvez vaga, de um cara fora do meio.
Um cara fora do meio, em princípio, não frequentaria lugares destinados ao público gls, assim ele me disse. A própria palavra balada ou variável lhe causa repulsa, assim ele me disse, todo garboso. Mas na hora de me explicar porque esses lugares lhe causam repulsa e outras manifestações físicas vindas do estômago, como ele me disse que costuma realmente acontecer, não soube me explicar muito bem os verdadeiros motivos. Disse que os frequentadores não lhe agradam, que a música não lhe agrada, depois me disse alguma coisa muito mal explicada sobre estereótipos. Os frequentadores do meio, assim ele me disse, possuem um estereótipo. Eles se vestem de determinada maneira, ouvem determinadas músicas, assistem a determinados filmes, louvam determinadas mulheres cantantes, e isso tudo lhe embrulha o estômago. As roupas que os fora do meio usam não são necessariamente parecidas com as roupas usadas pelos frequentadores destes lugares, as músicas que eles ouvem não são necessariamente as mesmas músicas que os frequentadores destes lugares ouvem, e isso, ele me disse, faz do cara fora do meio ter mais personalidade, embora ele não saiba me explicar muito bem como isso acontece. Disse, todo garboso, que os fora do meio devem ter mais personalidade do que os frequentadores de lugares destinados ao público gls, porque eles, por eles próprios, construíram sua imagem sem precisar pegar emprestada a imagem estereotipada, ou padrão, ou algo assim, do que seria um cara gay. Mas ele não soube me explicar muito bem qual é a imagem de um cara gay, embora ele tenha tentado, embora ele tenha tentado.

o paraquedista

3 de setembro de 2009
O homem perdeu o controle do pára-quedas (sem acordo ortográfico, na época) e caiu no telhado de um casarão da Urca. Um homem barbudo (depois fiquei sabendo que se chamava Marcelo Camelo ou coisa assim), correu para ajudá-lo com aquelas varas para tirar folhas e insetos da piscina. Mallu Magalhães, uma linda menina de treze anos, no máximo, disse para Camelo que o homem estava inconsciente. Se ele não fosse resgatado dentro de poucos minutos (segundos, talvez), corria o risco de cair de uma altura de quase cinco metros e, poderia, sem dúvida, sem dúvida, vir a falecer – como disse uma loira chamada Angélica, naquele momento cobrindo os olhos de duas crianças com suas delicadas e finíssimas mãos. Luciano Huck, Chico Buarque, Paulo Coelho e um barbudinho de óculos redondos apareceram com um colchão e o colocaram onde Caetano, por seus cálculos, disse onde o homem deveria cair. Não deu vinte e seis segundos e o homem do pára-quedas caiu exatamente no meio do colchão, com os braços abertos que nem Cristo Redentor, como foi bem observado por Fernanda Torres naquele momento. Depois de olharem os braços abertos do Cristo Redentor no alto do Corcovado, voltaram os olhos ao homem do pára-quedas, que estava, acreditavam, retomando consciência. Chico colocou o Leite Derramado dobrado debaixo da cabeça do homem como se fosse um travesseiro e quando ia começar a fazer respiração boca-a-boca, Angélica, a loira, mandou seus filhos entrarem pra dentro. O homem já estava consciente; pelo menos tinha os olhos abertos e começava a falar.

- Quem foi que me chupou? – olhou para um dos lados, como se Chico e Caetano fossem os mais prováveis. Só então se perguntou onde estava – Onde estou?
- Num casarão da Urca – respondeu Mallu Magalhães – E foi Chico que te chupou, claro, não nessa ordem respectivamente.
- Estou confuso, o que é Urca, o que é Chico?
- Urca é um bairro tradicional do Rio de Janeiro – Camelo interrompeu num tom mais firme e direto que Mallu, como se ele forçasse esse tom mais firme e direto para cima da menina – e Chico é este grande poeta da alma feminina, - dando dois tapinhas nas costas de Chico - autor do livro que te serve como apoio pra cabeça no momento.

O homem tirou o livro que tinha na nuca e começou a folheá-lo sem ler coisa alguma, como uma pessoa que pede para ver um livro que tem na mão de outra e depois o folheia sem ler coisa alguma e diz legal antes de devolvê-lo. E então deu um gemido.

- Sente dor? – perguntou Fernanda Torres.
- Sinto, aqui ó – apontando para uma região entre o umbigo e a virilha, mas que não é exatamente a cintura.
- Tadinho – disse uma voz no fundo, perto da piscina, que poderia ser tanto de Mallu quanto do barbudinho de óculos redondos, não sei.

Luciano Huck pediu para ele tentar se levantar, com o apoio de seus musculosos braços, evidentemente. O homem do pára-quedas se levantou sem muita dificuldade e foi levado para uma sala toda envidraçada com uma bela vista para o mar.

- O que temos aqui? – perguntou uma mulher sorridente com uma taça de champanhe numa das mãos e um docinho esfarelado noutra.
- Este homem caiu de pára-quedas no telhado, Narcisa, mas acho que tá tudo bem agora – disse Angélica, a loira.

Narcisa se aproximou do homem jogado no sofá; para isso ela teve que se inclinar de forma que derramou algum champanhe no tapete de pele de urso panda sintético.Ofereceu o docinho ao homem porque achou que ele deveria estar passando fome; tendo caído de pára-quedas no telhado da casa e tudo o mais. Depois limpou a mão na barra do vestido e se sentou ao lado dele. A taça de champanhe foi colocada numa mesinha de pedra cor de papel carbono. Un de los hermanos pegou a taça achando que era sua, mas Narcisa nem percebeu e acabou tomando a taça de un de los hermanos também (Quem percebeu foi Caetano, o veloso, que até fez uma música engraçadinha sobre o caso, depois regravada por Pitty, a baiana). O homem do pára-quedas começou a fechar os olhos de sono, com farelos de doce a cair de sua boca. Com todo o cuidado, foi levado a um quarto no andar superior. Quando acordou não reconheceu o lugar onde estava e voltou a dormir. Mais tarde, acordou outra vez e novamente não reconheceu o lugar onde estava, por isso voltou a dormir, para ver se quando acordasse da próxima vez, estivesse, então, num lugar conhecido.

sem dizer nada

31 de agosto de 2009
Ao se levantar me deu um beijo perto dos olhos, sem dizer nada, para eu não perguntar nada; aonde ele ia e porque estava se vestindo com tanta pressa se não tinha compromisso algum marcado naquela noite, pelo menos não que eu me lembrasse, forcei-me por lembrar, sabia que sua mãe estava meio doente, mas ele mesmo acreditava, sem acreditar, na doença das pernas dela, porque quando as pernas dela doíam assim, coincidia com as duas semanas de ausência dos três filhos em casa. E não perguntei nada também, porque aquilo podia ser coisa de família; se fazer de preocupado, se vestir com tanta pressa como se tivesse um compromisso urgente podia ser coisa hereditária, herdada do avô por parte de mãe.
- Aonde você vai? – eu não perguntei, então.
Ele não me disse para onde ia. Apoiou-se num dos braços do sofá pra colocar as meias enquanto não me dizia aonde ia.
- Aonde você vai?
Colocou os tênis e amarrou os cadarços com pressa, como se tivesse um compromisso urgente, enquanto não me dizia aonde ia. Ao se levantar me deu um beijo perto dos olhos sem me dizer aonde ia e se voltava logo.

o que ele tem?

27 de agosto de 2009
Eu não sei o que Daniel viu naquele homem mais velho de japona alaranjada e barbicha triangular no queixo. O homem deve ter alguma coisa de extraordinário que sua japona alaranjada não me deixa entrever. Algo que eu não tenho, ou algo que Daniel não foi capaz de perceber em mim, mesmo eu tendo me mostrado tão abertamente, por assim dizer, com transparência. Daniel pode não ter reconhecido em mim algo que reconheceu naquele homem de japona alaranjada e barbicha restrita a um pequeno triângulo no meio do queixo. Posso não ser tão claro quanto achei que pudesse ser, pelo menos não o suficiente para Daniel me entender minimamente. Ou Daniel possui uma muito débil percepção do mundo e, principalmente, de mim, ou o homem de japona alaranjada que vi do outro lado da rua possui alguma coisa de extraordinário que sua barbicha triangular no meio do queixo torne qualquer um incapaz de perceber.

links

23 de agosto de 2009
Dois contículos que escrevi estão na (ou seria no?) NitroG. Este aqui e mais este.

Para quem não sabe (eu também não sabia) que eu tenho Twitter e, claro, o link do famigerado Orkut.

Que mais? Ah, sei lá. Levantemos os copinhos pra brindar nosso encontro.
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