homossexualmente falando

1 de dezembro de 2009
Homossexualmente falando, todo o desfile foi um grande e fétido fracasso. Primeiro: a estampa do vestido bleu da modelo afro-descendente, Juliana Cócoras, é uma piada de mau gosto, muito mau gosto – referindo-se ao desenho de um esqueleto sentado num pincel manchado de vermelho com um balãozinho, onde se lê, em verdana, This is it!. Sabemos que eticamente os esqueletos não devem ser usados nas passarelas; estamos falando de moda, de modelos magérrimas, e não queremos trazer o problema da anorexia à tona; sabemos que ele existe, mas que se resolve com um tratamento psicológico sério e alguns bons tapinhas na bunda, e não é de responsabilidade de nenhum estilista homossexual esse tipo de discussão. Outra coisa: a opção de substituir os acessórios por melancias me parece falha uma vez que o tema era o candomblé aplicado a Derrida e, que eu me lembre, Derrida nunca mencionou melancias em seus trabalhos (Ctrl F pra quem duvida), acho, inclusive, que Derrida não sabia nem como descascar uma melancia, ou como fazer conta de cabeça usando melancias no lugar de números, ou sequer o que era uma melancia.

O vestido capilar usado por Patrícia Poeta é lindo, bem acabado, com movimento, mas não precisaria daquela abertura na altura do útero. Revendo as imagens da modelo no site, percebemos o quanto ela estava desconfortável com o útero à mostra, e eu não sei que tipo de mulher gostaria de usar um vestido para não se sentir confortável nele. Eu não canso de falar aos meus alunos da Univitelinos o quanto é importante pensarmos nas mulheres antes de sairmos rabiscando qualquer coisa no papel. Homossexualmente falando, isso é um grande descaso com elas. O estilista, mais do que ninguém, tem de se posicionar no lugar de uma mulher, coisa que qualquer bom homossexual de rua, de sauna, ou de dentro de um copo, sabe muito bem como fazer e, como eu sempre digo – e algumas vezes arroto – o homossexual precisa usar a alma feminina que Deus lhe deu e tirar proveito disso. Repita. O homossexual precisa usar a alma feminina que Deus lhe deu e tirar proveito disso.

Não estou aqui julgando os outros trabalhos de Leni Maxwell Salvador, grande ícone da moda dos anos 90, mas seu desfile neste ano foi um grande e fétido fracasso. Um estilista que não se propõe a pensar nas necessidades do seu público está para um michê com ejaculação precoce ou uma Débora Colker que tenha varizes. Se Salvador quer agradar a crítica especializada, que não agrida as mulheres, que considere um pouco mais o que sua mãe diria.

a batida e o cocô

28 de novembro de 2009
Cada descamisado que fala batida perfeita é um cocô de cachorro que deixaram de limpar na rua.

a pessoa de bem com a vida

26 de novembro de 2009
A pessoa de bem com a vida é um c (cêzinho) da biologia – atende também por gene recessivo. Pode-se cruzar duas pessoas saudáveis, por exemplo, e, porque ambas carregam o gene recessivo herdado da família, acabam por gerar uma criança assim, de bem com a vida. Hoje em dia ainda não é possível antecipar a gestação de um bebê nestas condições, infelizmente; é lá pelos três ou quatro anos de idade, na verdade, que percebemos o sério distúrbio. A criança de bem com a vida é aparentemente normal, mas quando lhe perguntam coisas triviais como: do que gosta, quantos anos tem ou se comeu todo o feijão na merenda da creche, ela dá uma resposta pouco elaborada, pouco criativa (o que não é comum para a idade) e diz, babando, que está de bem com a vida (uma criança de inteligência regular, levanta dois dedinhos para mostrar que tem três anos, por exemplo). No começo acham até bonitinho; uma criança ingênua, retardadinha, até que é muito fofo mesmo. Mas depois, se não receber um tratamento adequado, ela se tornará um adulto limitado, um disléxico de discurso, e poderá, até mesmo, declarar que prefere viver a vida intensamente ou que a vida é assim mesmo, cheia de escolhas e obstáculos.

Gustavo e o obscuro

23 de novembro de 2009

Gustavo nunca tinha entrado numa casa tão bonita e bem decorada. Ele mesmo, na verdade, não tinha a menor idéia disso. Para ele, sentar-se naquela cadeira Mada Foca ou andar sobre aquele piso, em nada se diferenciava de se sentar num pedaço de madeira podre ou colocar os pés descalços num chão de terra batida depois de uma semana chuvosa com casos de esquistossomose aqui e mais ali. O dono da casa, o senhor Matias, era um homem de quarenta e poucos anos, mas faria acreditar qualquer pessoa descuidada, míope ou que não possuísse o utilíssimo dom de adivinhar a idade dos outros, que não passava dos trinta e seis. Arquiteto de formação e publicitário para dissimular sua falta de talento com plantas e maquetes, Matias até que tinha uma casa muito bonita, cuja decoração, dizia ele, era assinada pelo próprio; embora ninguém fosse contestar que reproduzir fielmente duas páginas da revista Casa & Decoração não seria, em certo grau, um trabalho autoral resultado de algum talento.

Munido de um controle remoto, Matias perguntou ao garoto de programa que tipo de música ele preferia. Gustavo, que com os anos de trabalho aprendeu a permanecer indiferente a essa situação, respondeu com um inaudível tanto faz.

- O quê?
- Tanto faz.

Deixar na mão do cliente esse tipo de decisão é a terceira ou quarta regra de todo o garoto de programa de acordo com a cartilha dos garotos de programas. E, por isso, Gustavo teve de escutar pacientemente a Sonata em Si Menor de Liszt, compositor de quem nunca tinha ouvido falar e, provavelmente, nunca mais ouviria.

E lá pelas oito da noite, quarenta e dois minutos depois de ter entrado na deliciosa casa de Matias, Gustavo começou a fazer, o que, em média, costuma ser feito aos nove minutos na companhia de um cliente: tirou a roupa. Ele estava todo duro; pelo menos o abdômen e os braços eram duros. Matias tomou um gole de uma bebida roxa, como se precisasse daquela bebida roxa para dizer o que queria:

- Você é lindo, garoto. Há quanto tempo começou a fazer isso?
- Me prostituir?
- (engolindo a bebida roxa) Isso.
- Há três anos atrás.
- Há três anos, você quer dizer.
- Isso, há três anos atrás.
- (balançando a cabeça negativamente) Não, há três anos atrás está errado, é redundante.
- Então como eu tenho que falar?
- Há três anos, sem o atrás. – explicou Matias
- Ah! – disse Gustavo começando a ficar excitado.

O rapaz se agachou para poder tirar a roupa de Matias, cuja nudez era ainda mais estimulante sob a única luz acesa que vinha do corredor. Estava de costas, levemente embriagado, pedindo que o montasse por cima, que o beijasse na cintura, que percorresse com a língua suas cabeludas e torneadas pernas. Uma pequena mancha negra se destacava numa delas, pouco abaixo do joelho, circular, do tamanho de uma nota de real dobrada três vezes. Os dedos se deslizaram por ali, não havia pelos e nem, na verdade, uma superfície, pois o indicador de Gustavo enfiou-se, de alguma maneira, lá dentro! Uma vez que tinha um dos dedos metidos no desconhecido buraco, sentia a pressão de uma palpitação esquisita, mas gostosa, como se aquele vazio possuísse vida e estivesse retribuindo a visita com uma sensação agradabilíssima de gelatina endurecida. Matias gemia. Outro dedo foi penetrado também e, depois, mais outro. A pressão era intensa; Matias gemia. E enquanto Gustavo se afundava cada vez mais, ambos – ele e Matias – perdiam-se em transe, agitavam-se como se estivessem no modo silencioso e recebessem uma ligação.

twitter

18 de novembro de 2009
A felicidade vive em lugares deprimentes. Pelo menos é lá onde elas costumam ser procuradas.

A homossexualidade de uma pessoa é medida pela quantidade de estrelas que ela tem tatuada pelo corpo.

Querem curar a homossexualidade pela televisão, mas tudo o que conseguem é deixar seu filho com cara de emo.

Tenho um lado espiritual independente de minha homossexualidade.

O chato de não ser hétero é que você não entende direito a piada do tiozão do churrasco.

Parece que em países miscigenados, como o Brasil, a amizade tende a ser colorida.

Só cuidado com quem diz que prefere deixar rolar, porque nessa, ele pode estar incluindo a sua cabeça também.

Orientação sexual é a direção tomada pelo pau quando tem ereção.

Já opção sexual é aquela dúvida que bate quando não sabe se vira o parceiro de frente ou de costas.

E para me seguir no twitter, coce aqui.

academia

16 de novembro de 2009

eu odeio rótulos

13 de novembro de 2009

A melhor coisa a se fazer quando você ouve isso, sem cometer qualquer violação prevista na lei, é procurar um banheiro alegando estar apertado. Caso perguntem, diz que sua cara de nojo, na verdade, é efeito da sensação de bexiga cheia, de alguma coisa ruim que comeu, e então desapareça. Não precisa correr, senão fica muito na cara e podem o acusar de antissocial depois; coisa que você não é, imagina. Se o estômago embrulhar - o que é bem possível -, aproveite o banheiro para fazer o que precisa ser feito, e depois tente ganhar um tempo na cabine se distraindo com os divertidos e fálicos desenhos feitos a canivete suíço até que você esteja convencido de que o assunto lá fora morreu.

Rotular, o que chamam de rotular, sabemos, é divertido. Rotulemos, então, os que dizem eu odeio rótulos.

Quando alguém diz eu odeio rótulos, ele está, automaticamente, se rotulando. Perceba a reação de um grupo de meninas de colégio, por exemplo, quando a mais idiotinha - geralmente a mais fanática por um ídolo cantante de franjinha - repete isso que deve ter encontrado numa comunidade do orkut ou num blog rosado com borboletas; o grupo se divide. Algumas vão aderir à observação da garota prontamente, enquanto outras, mais razoáveis, dirão, balançando os seios, que aquilo tudo é uma grande bobagem. Estas, geralmente, não se dão ao trabalho de discutir o assunto, pois são a minoria do grupo e, principalmente, precisam se preocupar com coisas mais importantes, como estudar logaritmo ou escolher a cor da tinta da caneta para escrever uma carta ao namorado. O grupo é, pois, dividido, porque está rotulado, nem que esse rótulo seja o mais baixo e desprezível, ou seja, o rótulo dos que dizem eu odeio rótulos.

Entre no perfil dessas meninas – algumas enrugadas e com barba, aliás – e veja como elas adoram aplicar rótulos na testa; a diferença é que elas chamam isso de comunidade virtual. Eu odeio segunda-feira, nascidos em 1988, homofobia já era, o fabuloso destino de Amelie Poulain, a Madonna sempre me liga, etc, não são outra coisa, senão, figurinhas autocolantes aplicadas na testa.

roubo

11 de novembro de 2009

o assumido

9 de novembro de 2009

O assumido entrou na drogaria e disse que aquilo (rodopiando uma arma com uma das mãos) era um assalto. Pediu, desbocado, que as três caixas presentes lhes dessem todo o dinheiro, ouviram, todo o dinheiro! As caixas, acostumadas com esse tipo de abordagem, colocaram o dinheiro (todo ele) junto com alguns vidrinhos de rinosoro e anti-inflamatórios (e sem receita médica, o que é ilegal) numa sacola suspeita que o assumido lhes entregou. Passava das dez da noite, o assalto não durou nem cinco minutos. Um sucesso, concluiu então a caixa mais masculinizada que, depois da confusão toda, ajudava a recolher algumas cartelas de comprimidos de gripe espalhados pelo chão. As câmeras de vigilância da drogaria registraram todos os momentos do assalto; o material foi entregue à polícia para investigação. O assumido é, agora, um homem procurado.

adoção, Thom Yorke e versatilidade

3 de novembro de 2009
Adoção

Um homem casado com outro homem adotou uma linda criança rechonchuda e rosada. Um dia, enfiou-lhe na boca uma mangueirinha de onde saía gás hélio. Tapou-lhe todos os orifícios com jornal ou pano úmido e, por encanto, a criança começou a flutuar. A ponta de um barbante foi amarrada numa das perninhas dela e a outra no delicado e finíssimo pulso de um dos homens, que desfilava pela praça de alimentação de um shopping a procura de um bom lugar para almoçar.

Thom Yorke

Thom Yorke, quando está triste, manda um SMS para um amigo (antigo namorado) dizendo “I feel I’m getting old, you know”. O amigo, no dia seguinte, de madrugada, entra na casa do Thom Yorke com a cópia da chave que ele ainda tem. Sem fazer barulho, e com toda a discrição do mundo, coloca uns chocolates e pirulitos debaixo do travesseiro dele, sem que Thom Yorke perceba. No dia seguinte o amigo de Thom Yorke recebe um SMS em que está escrito “So gay now :D”

Versátil

Atualize-se. Na época em que os gays usavam bigodes e cavanhaques, dizia-se que isso se chamava relativo. O tempo passou, os bigodes envelheceram, os cavanhaques estão mofados e esquecidos num armário junto com o livro de estudos sociais da segunda série e, então, isso passou a se chamar flexível. Neste momento em que escrevo, ainda chamam por aí de versátil. Ao que parece, logo, será dinâmico, inconstante ou polivalente, quem sabe.

uma das diferenças

28 de outubro de 2009
Uma das diferenças entre homens e mulheres, acredite, é que homens costumam ter pelos. As mulheres também têm, mas preferimos achar que não e, por isso mesmo, elas se depilam. Quando as axilas de uma mulher são peludas, dizemos que se parecem com as axilas de um homem. Rimos, fazemos cara de nojo ou botamos apelidos. Olha lá o Seu Armindo voltando das compras. É uma situação pavorosa que nenhuma mulher quer passar; mas me parece que alguns homens sim, fazem questão. Por isso depilam as axilas, o peito, a barriga; para que os desdentados em frente à fábrica no horário de almoço lhes chamem de Renatinha ou Dona Tatiana.

blogue de veado

24 de outubro de 2009

Ganhamos o selinho “blogue de veado” e estamos tão orgulhosos que resolvemos celebrar comendo bolinhos de bacalhau e fazendo uma maratona de filmes do Woody Allen lá em casa. Agradecemos a preferência, Suruboy, está convidado para a próxima bacalhoada com a Mia Farrow, mas antes, está bem, vamos responder isso aí.

SuruboyComo é o homem ideal para você?

Guy Franco - Ah, ele é lindo. Não faz academia e tem um corpão. É importante isso dele não fazer academia. Ele até tentou, mas tinha preguiça, sabe. Prefere ficar na varanda lendo Tolstoi, com os pés descalços apoiados numa cadeira enquanto bebe um suco de maracujá. Depois ele dorme. Adora dormir. Eu falo pra ele se levantar e dormir no quarto, que é mais confortável e tudo, mas ele faz um gesto de “xá pra lá” com uma das mãos, de olhos fechados e um sorriso que por pouco não mostra os dentes.

SuruboyPoderia citar cinco filmes que foram importantes de alguma forma pra você?

Guy Franco – Eu poderia, mas não sei se devo. Estou visualizando um menino fumante respondendo que essa é uma “tarefa difícil” e que “toda lista comete injustiças”. Quem é ele? Alguém fala pra ele tirar a camisa xadrez porque não combina com os pelos expostos das pernas.

SuruboyVocê se arrepende de alguma coisa que fez?

Guy Franco - Sim, várias. (Cadê o menino fumante pra nos dizer que “não se arrepende de nada” ou “pior é se arrepender do que não fez”)? Uma vez, na quinta-série, durante o recreio, desenhei na lousa uma bola com braços, pernas e o que seria uma cabeça. Quando a Ju entrou na sala, apontei para a lousa e disse que tinha feito o desenho em sua homenagem. A Ju chorou, correu e me denunciou para a professora. Eu me arrependo de ter falado que era eu quem tinha feito o desenho dela. Também me arrependo de ter mijado na pia do banheiro da escola naquele mesmo ano. Não precisava.

SuruboyTem alguma coisa que você não suporta, assim, não suporta mesmo?

Guy Franco - Sorvete de creme. Eu ia responder suco de milho ou o uso excessivo de pontos de exclamação numa única frase, mas vai sorvete de creme.

Suruboy Que estação de metrô mais gosta?

Guy Franco – Sei que não é a Vila Madalena nem a Barra Funda.

SuruboySe pudesse escolher entre um CD, Vinil e MP3, o que você seria?

Guy Franco - Isso aí me cheira a MTV e é uma pegadinha que eu sei. A pergunta é formulada de maneira que o entrevistado escolha o vinil. Nessa eu não caio. Não vou escolher o vinil. A pessoa que escolhe o vinil está entrando no mesmo saco de cabeludos que vendem instrumentos musicais na Teodoro de Sampaio ou cantores que são barbudinhos porque do contrário seriam tidos por mulheres de tão delicadas e sensíveis que são as letras de suas músicas. Eu escolheria, por eliminação, o CD. MP3 tem algo de menina que se veste de rosa, algo de hello kitty.

chega de procurar, agora quero ser encontrado

21 de outubro de 2009
Depois que o último garoto com quem estava saindo deixou de atender as ligações que ele lhe fazia no celular, Arthur disse chega de procurar, agora quero ser encontrado. Claro que ficando em casa à toa ninguém o encontraria, então ele começou a freqüentar o cinema e a locadora da avenida; vai que alguém o abordasse para perguntar se aquele filme dos chineses gays na Argentina era realmente bom. Arthur começou a assistir a muitos filmes nessa época, seu repertório de cinema aumentou tanto quanto se tornou mais frequente suas visitas a sites de homens fardados. Mas um dia Arthur recebe a ligação do antigo companheiro, dando a entender que queria voltar; e ele voltou. Arthur deixou de ir ao cinema com a mesma frequencia, ganhou alguns incontestáveis quilos a mais e começou a ter lapsos de memória, esquecendo-se, por exemplo, de que pousar óculos escuros acima da testa era algo bem cafona.

Site Gay Gratuito

9 de outubro de 2009

Site Gay Gratuito entrou na sala. Viu Young Twinks lhe fazer um sinal com dois de seus longos e cabeludos dedos para ele se sentar numa cadeira vaga que tinha logo ali, na sua frente, entre Famosos Nus e o belíssimo Quero Gozar na Cam. A palestra sobre Homossexualidade e Sustentabilidade, um sério compromisso, dada pelo célebre Milhares de Fotos e Videos – importantíssimo pesquisador do comportamento homossexual da Unicamp - já tinha começado há o quê? dez minutos?

- Vinte. – disse Young Twinks fazendo biquinho como se fosse um ponto de exclamação.
Famosos Nus olhou pra trás com cara feia, balançando a cabeça como se agita uma batida de maracujá; uma maneira delicada de pedir silêncio sem fazer “shh” ou “psiu” ou “vamos calar a boca aí”.

Site Gay Gratuito assistiu à palestra compenetrado, diria ele se perguntado por alguém que se importasse com isso. Mas não entendeu assim, vai, tão bem a parte da projeção de Power Point que mostrava um bonequinho preto com o indicador levantado e uma lâmpada acesa sobre sua cabeça, ao lado de um gráfico que relacionava o aumento da preocupação com o meio-ambiente com o crescimento de homossexuais assumidos.

Quando a palestra terminou Young Twinks foi falar direito com Site Gay Gratuito:

- Foda, né?
- Foda.
- Vamos esperar todo mundo ir embora pra falar com o Milhares de Fotos. Quero apresentar aquele meu projeto de levar a cultura homossexual para crianças carentes que montei com o Homens Peludos e o Negros Dotados.

Mas Milhares de Fotos era muito célebre, com muitos fãs; uma pequena fila começou a se formar em frente à sua mesa. A maioria de seus fãs queria lhe dar os parabéns, associando muito mal trechos da palestra com autores que não faziam o menor sentido de serem citados ali, como Nietzsche, Foucault ou Quentin Tarantino. Quando chegou a vez de Suruba de Machos, que estava tirando meia dúzia de folhas de papel sulfite de uma pastinha dos 101 dálmatas, Milhares de Fotos disse que precisava ir embora por causa do rodízio, mas que qualquer coisa, era só mandar um e-mail para o endereço que estava na lousa com o assunto Homossexualidade e Sustentabilidade, um sério compromisso, que ele responderia a todos, com mais tranqüilidade, em casa. Claro que Young Twinks estava decepcionado. Era possível ver sua decepção se manifestando nos cotovelos, que se batiam contra a cintura, lhe dando um aspecto de um gringo que quer aprender a sambar, mas não bebeu caipirinha suficiente para isso.

- Vamos que a gente cola no carro dele – disse Site Gay Gratuito puxando a camiseta de Young Twinks pela manga.

Seguiram pelo corredor das Letras quando encontraram Punhetas, toda desgrenhada, suando, correndo na direção contrária.

- E a palestra do Milhares de Fotos e Vídeos? – ela perguntou.
- Já era.
- Não acredito!
- Você tá mais de uma hora atrasada, Punhetas. – disse Site Gay Gratuito dando um sorrisinho venenoso.
- Vamos, senão vai ser a gente que vai perder ele. – disse Young Twinks com olhos enormes.

Chegando ao estacionamento conveniado da faculdade não viram Milhares de Fotos. Também não sabiam que carro ele tinha. Os cotovelos de Twinks iam começar a se bater na cintura quando Site Gay Gratuito gritou do outro lado do estacionamento o que poderia muito bem ser o nome de Young Twinks, mas que pela distorção daquele barulho todo da rua, soou como “Biscoito” ou “Perfume”. Young Twinks correu até Site Gay Gratuito. Viram Milhares de Fotos e Vídeos dentro de um carro branco, dando um papelzinho a um cara do estacionamento e, em seguida, desaparecendo pela Avenida Contos Eróticos.

Young Twinks culpa Punhetas por esse desencontro até hoje.

o grande mal de nossa época

7 de outubro de 2009
O grande mal de nossa época é alegar que determinada coisa, qualquer coisa, é o grande mal de nossa época. Não é a angústia ou a solidão em grandes cidades, não é a depressão, a impotência sexual, a internet, as cirurgias plásticas, as varizes. Não. O grande mal de nossa época é alegar que determinada coisa, qualquer coisa, é o grande mal de nossa época.

roxa

5 de outubro de 2009

Eu sugeri que fôssemos ao cinema ver o novo filme do Eduardo Coutinho ou, sei lá, que abríssemos o guia da Folha mesmo e procurássemos uma peça que estivesse passando na Praça Roosevelt, em algum Sesc, o que fosse; sabe que gosto de domingo, de aproveitar o domingo, que prefiro fazer qualquer coisa a desperdiçar o domingo só porque acordamos tarde e o almoço vai ficar pronto lá pelas cinco e pouco, enquanto isso deixa no jogo do brasileirão e me ajuda com a cebola porque já coloquei o arroz no fogo baixo. E quando falo que quero assistir a um filme, ver as gravuras do Mondrian na Pinacoteca, você sabe, estou querendo lhe agradar, deixo pra lá as minhas coisas, meus amigos, meu domingo, a mim mesmo, para ficar ao seu lado insistindo na mesma idéia de sair um pouco, de descobrir de que maneira o mundo está se acabando e se comendo lá fora, de ver se os poodles, como diz, tomaram conta da Augusta com a Fernando de Albuquerque. Mas nem pra dizer que não vai rolar, que prefere ficar em casa baixando filmes ou respondendo e-mail a sair por aí é capaz. Eu ainda pego emprestado o carro do meu irmão de idiota pra darmos uma volta e o mais longe que conseguimos chegar foi ao supermercado do shopping comprar umas frutas, uma garrafa de vinho chileno e papel higiênico, porque o de casa acabou, você sabe, e se deixássemos de passar no supermercado do shopping, não teríamos nada pra acompanhar a macarronada ou limpar a bunda, e isso e aquilo outro, bem depois de uma risadinha sua mal-intencionada no canto da boca, você não ia querer, não é? Dê mais de sua risadinha torta e faça também aquele passinho com os ombros encolhidos, olhos embriagados, todo miúdo e epiléptico, e quem sabe não te acompanho, não coloco um Seu Jorge, um Caetano, qualquer um desses que só agradam a você pra gente dançar gostoso, coladinho, se segurando um no outro, mais pra não perder o equilíbrio do que por querer fazer cena de casal apaixonado. Boca toda roxa a sua, não, toda ela. Passa a parte de trás da mão e vê se não está toda roxa. Não saiu ainda. Desse jeito, também, não vai sair mesmo. Eu me aproximei e colei minha língua em seus lábios, um minuto só, vai ver como sai assim, foi a metade da garrafa de vinho que tomou, um minuto só e você vai ver como isso sai.

webcam, pedofilia e insetos

2 de outubro de 2009
Pedofilia

Um professor de matemática se apaixonou por um aluno do nono ano. O aluno do nono ano também se apaixonou por ele. O professor de matemática, muito discreto, levava o aluno do nono ano para sua casa sem que ninguém desconfiasse de nada. Quando o aluno do nono ano completou a chamada maioridade, saiu de casa e foi morar com o professor.

Opção Sexual

Caminhando onze ou doze anos pela mesma estradinha de pedras irregulares, encontrou uma bifurcação. De um lado a mesma estradinha de pedras irregulares; do outro, um caminho dificultado por um terreno muito íngreme e escorregadio. O último, pelo menos, era cheio de florzinha.

Insetos

Se todos os insetos do mundo se transformassem em hamsters, de um momento para o outro, seria o fim do mundo.

Webcam

Vemos a imagem de um homem que não mostra o rosto, sem camisa e uma tatuagem de um tribal num dos braços. Há momentos em que ele digita alguma coisa no teclado e momentos em que ele acaricia o volume sob a cueca. Nos momentos em que ele acaricia o volume sob a cueca, ele se afasta um pouco mais da câmera e podemos, por um instante, ver um pedaço de sua primorosa boca. Mas aí é tarde, porque você já tinha visto a tatuagem de tribal num dos braços.

Masturbação

Quando um homem se masturba com as mãos, um pouquinho de homossexual ele é. Se ele fosse heterossexual de verdade, se friccionava contra o colchão ou qualquer outra superfície que não o comprometesse tanto quanto uma mão peluda.

coisas que te fazem gay

26 de setembro de 2009
Há alguns meses, um sujeito chamado Virgil Griffith, teve a idéia de fazer um estudo científico determinando que tipo de música te deixaria imbecil. Ele pensou, certo dia: “loving this rubbish says a lot about someone and how much they got going on in their head”. O que ele desconfiava era que pessoas que escutavam porcarias deviam ter uma mente atrasadinha (para ficarmos no eufemismo); e isso, não é nenhuma idéia brilhante, vai.

Tudo o que ele teve que fazer, na verdade, foi reunir as bandas e músicas mais populares e fazer uma pesquisa em centenas de escolas, relacionando o desempenho dos alunos com o tipo de música que eles ouvem. O resultado foi este. Ele fez o mesmo com livros (ou algo parecido com isso, em alguns casos), e ele encontrou isto.

Há alguns meses, também, fizemos um estudo muito parecido. Pensamos: “loving this rubbish says a lot about being gay”, e então, seguindo a mesma idéia de Virgil, fizemos uma pesquisa de quais artistas (ou algo parecido) te fariam gay. Pela internet mesmo, por sites de relacionamento mesmo, entramos nos perfis de centenas de gays e fizemos uma relação do que eles gostavam. O resultado é esse aí embaixo. Mas antes, três notinhas:

(1) O teste foi feito exclusivamente com homens, e só funciona com homens, mesmo entre aqueles que dificilmente notamos ser um.

(2) Quanto mais para a esquerda da tabela, mais coisa de gay é, quanto mais para a direita, claro, menos. Mas se algo está na lista, é porque qualquer coisa de gay ele tem.

(3) Estar mais para a esquerda da tabela não significa necessariamente que mais gays gostem daquilo, mas que mais exclusivamente para gay aquilo é.



Isto aqui é PJ Harvey, aquilo ali é Lady GaGa

22 de setembro de 2009



Guy:
E isto aqui, o que é? (chacoalhando uma caixinha de CD)
Edgar: PJ Harvey, o outro é Lady GaGa.
Guy: Pi o quê?
Edgar: Jay Harvey. O Lady GaGa não é meu, é do Alex.
Alex: (sorrindo) Gosta de Lady GaGa?
Guy: Preciso ouvir pra ter certeza que não. O que é isso na cara dela?
Alex: Maquiagem, eu acho. (tira o CD da mão de Guy) Vou colocar pra você ouvir.
Guy: Não precisa. Queria comer, sério.
Edgar: Só falta preparar a salada. Não preparei ainda porque ia murchar antes de você chegar.
Alex: Vou colocar a primeira faixa, acho que você conhece, todo mundo conhece.
Guy: Não precisa, Alex. Só tenho fome mesmo.
Alex: (olhando para Guy e começando a remexer os ombros) Você conhece, certeza.
Guy: (prestando a atenção na música) É, acho que conheço. Tocava muito quando eu ainda via sentido em boate, isso há uns cinco ou seis anos.
Alex: Impossível, essa música é deste ano.
Guy: Ah! Claro que é, Alex, claro que é. Edgar, não precisa se preocupar com a salada, gosto sem tempero mesmo.
Alex: (meio indignado) Juro! Essa música não existia há cinco ou seis anos.
Edgar: Acabou o pepino.
Alex: A Lady GaGa devia assistir a Sakura Card Captors naquela época.
Edgar: Meu Deus, acabou o pepino!
Guy: Consigo viver sem pepino. Estou vivendo há meses sem pepino, anos talvez.
Edgar: Então vai sem pepino mesmo. Só preciso cortar a cebola.
Alex: (coloca na quarta faixa do CD) Vê se conhece.
Guy: Conheço, já disse.
Alex: É outra.
Guy: É a PJ?
Alex: Não, é a Lady GaGa ainda.
Guy: Você acabou de dizer que era outra, meu anjo.
Edgar: (cortando a cebola e cantando ao mesmo tempo) Can remind, can remind.
Alex: (virando os olhos) É can’t read mind, can’t read mind, na verdade.
Edgar: Oh! Põe agora PJ Harvey pro Guy conhecer.
Guy: É aquela mulher que quebra tudo numa quitanda, essa PJ Harvey?
Alex: (franzindo a testa) Quem?
Guy: Não tem uma cantora que quebra tudo numa quitanda?
Edgar: Se tem não é a PJ Harvey.
Guy: Pena, por essa aí eu me interessaria. Uma mulher que atira melancias na rua, com uma colméia na cabeça.
Alex: Amy?
Guy: Não lembro com que letra começa o nome dela. Acho que é brasileira, meio cariada.
Alex: É a Amy que você tá falando. Não gosto de Amy.
Guy: Uma mulher que quebra tudo numa quitanda deve fazer uma música razoável, fico pensando.
Alex: E ela não é brasileira.
Guy: Bem que achei estranho uma cantora brasileira com fúria. Cantora brasileira não tem fúria. O que é muito ruim, por sinal, muito ruim.
Edgar: Gente, tá pronto.
Guy: Preciso lavar as mãos.

quando voltou

17 de setembro de 2009

No entanto, eu acabei perguntando. Quando voltou da sua misteriosa e apressada saída, acabei perguntando aonde ele tinha ido. Passava das onze, portanto mais de três horas em que ele havia saído sem me dizer aonde ia. A primeira coisa que ele fez quando chegou em casa, no entanto, foi tirar os tênis, depois jogou o celular em cima do sofá, e depois, então, olhou pra mim, sem se aproximar, da mesma distância em que arremessou o celular no sofá e tirou os tênis, para me dizer, quase no mesmo instante, como se tivesse ensaiado, que tinha passado na sua casa para visitar a mãe e ver os irmãos. Comeu lá também, desculpa, disse. Ficou descalço. Desceu o zíper do moletom enquanto ia caminhando, sem jeito, robótico, ao banheiro, tomar um banho, porque se além do jantar ele tivesse tomado banho em casa, imagina, ia ter que dormir por lá também. Conhece as crises da mãe que tem.

Como não podia fechar a porta do banheiro, como já não era mais capaz de fechar a porta do banheiro, tirou as duas peças de roupa que lhe faltavam na minha frente, mas de costas, e de propósito. As duas peças foram colocadas em cima da tampa da privada, meio de qualquer jeito mesmo. E, ainda de costas, abriu o vidro do box, fechou o vidro do box, ligou o chuveiro, molhou os cabelos. Lá de dentro resmungou qualquer coisa, mas eu não sabia se era comigo ou com o sabonete que procurava com uma das mãos, de olhos fechados. Tirei toda a minha roupa e a deixei no corredor, meio de qualquer jeito também. Abri o vidro do box, fechei o vidro do box, encostei-me à parede, com as mãos pra trás para não sentir o gelado do azulejo nas minhas costas. Aproximei meu queixo da sua nuca sem me desgrudar da parede. Ele jogou a cabeça para trás, abrindo o pescoço; o mesmo gesto que se faz para aproveitar a água que cai no corpo, no peito, ou como se sentisse um arrepio, como se tivesse sido estimulado pela barba malfeita que lhe roçava a nuca. Não me olhava mais, mas desde quando voltou da sua misteriosa e apressada saída, na verdade, não me olhava direito; foi direto ao banheiro tomar um banho, deixou a porta aberta porque já não era mais capaz de fechar a porta do banheiro na minha cara, não era mais capaz de olhar na minha cara.

Estes banhos tendem a ser mais demorados do que os banhos comuns, mas são dois corpos que se limpam de uma vez, eu disse, ou pensei haver dito.
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