Deus ama o bom homossexual, está escrito, em algum lugar do Antigo Testamento. As palavras me fugiram; deixei a janela aberta e, quando voltei da academia, vi fragmentos de letras espalhados, perto da cortina; vogais e consoantes na sacadinha, salvas somente as que possuíam as pernas mais compridas e as mais pesadinhas. Mas, se bem me lembro, e a memória há de contribuir, Deus disse, numa mesma frase, algo sobre o amor, sobre a pessoa e sobre o incondicional. Oras (bolas, duas de pistache), o homossexual também ama!, e em nada desse amor se diferencia do amor entre um homem e uma mulher (ou entre uma mulher e um homem, ou entre vice e versa). As diferenças estão nas lentes coloridas de quem vê. Meça, se possível, o amor entre dois homens ou entre duas mulheres. Não há nada de diferente, fora as cores. Os homossexuais amam com cores diferentes. Uns dizem mais vivas e intensas; outros mais quentes; ainda tem o grupo dos que não vê cor nenhuma, mas transparência.
deus e a homossexualidade
8 de fevereiro de 2010
Deus ama o bom homossexual, está escrito, em algum lugar do Antigo Testamento. As palavras me fugiram; deixei a janela aberta e, quando voltei da academia, vi fragmentos de letras espalhados, perto da cortina; vogais e consoantes na sacadinha, salvas somente as que possuíam as pernas mais compridas e as mais pesadinhas. Mas, se bem me lembro, e a memória há de contribuir, Deus disse, numa mesma frase, algo sobre o amor, sobre a pessoa e sobre o incondicional. Oras (bolas, duas de pistache), o homossexual também ama!, e em nada desse amor se diferencia do amor entre um homem e uma mulher (ou entre uma mulher e um homem, ou entre vice e versa). As diferenças estão nas lentes coloridas de quem vê. Meça, se possível, o amor entre dois homens ou entre duas mulheres. Não há nada de diferente, fora as cores. Os homossexuais amam com cores diferentes. Uns dizem mais vivas e intensas; outros mais quentes; ainda tem o grupo dos que não vê cor nenhuma, mas transparência.
twitter gay
4 de fevereiro de 2010
Um fetiche sexual que você acha pavoroso hoje, pode ter dado origem a você ontem.Os caras de boa se encontraram com os caras sussa e fizeram um churras meia-boca.
Isso de batida perfeita vai muita pinga?
Se colocar muito açúcar, afemina.
Dá duro o dia inteiro, como exigir o mesmo à noite?
É monogamia se você come só um parceiro mas dá pra todo mundo?
Sorria, você está sendo fumado.
O terapeuta me disse que eu tenho problema de dicção e é por isso que ninguém me entende.
Ex-namorado bom é ex-namorado pelado e de lado.
Há homens que são homossexuais e homens que usam pochete.
Se existe um homossexual dentro de cada um, por algum lugar ele deve ter entrado.
E para me seguir no twitter, coce aqui.
o ângulo de quem vê
30 de janeiro de 2010

Numa noite dessas, eu estava me sentindo muito sozinho e triste e sem nada pra ver na televisão nem nada para comer na geladeira, então eu entrei na internet e chamei um menino querido que estava online e que sempre conversava comigo sobre celebridades e máscara de carnaval. Falei para ele vir aqui em casa conversar comigo sobre celebridades e máscara de carnaval pessoalmente, ou sobre o que ele quisesse, mas no meu sofá. Ele disse que tudo bem, ia sim, mas primeiro precisava dar comida aos malhados famintos que ele tinha em casa e já vinha pra minha, a poucas quadras da dele. Como ele tinha malhados demais em casa, chegou aqui muito mais tarde do que disse que ia chegar, quase quatro horas depois, quando eu já estava dormindo há muito tempo no chão da lavanderia depois de me entediar com as minhas cuecas sujas. A gente ainda não se conhecia pessoalmente, mas eu já tinha uma vaga e colorida idéia de como ele era de rosto e de corpo, porque ele já tinha me mandado várias fotos dele de sunga na praia, e na maioria dessas fotos, ele estava com uma lata de cerveja na mão ou com o dedo polegar e o mindinho levantados, fazendo sinal de que a vida valia a pena ser vivida. Pessoalmente ele não era assim tão bonito e interessante quanto na foto, alguma coisa no rosto dele estava errada. No começo eu achei que eram os dentes, porque quando ele falava ou abria a boca para deixar entrar ar, dava pra ver que os dentes dele eram bem errados, fora do lugar, mas não por culpa dele, pois ele devia ter nascido assim desde sempre, e pensado que aquela maneira dos dentes se posicionarem até que estava bom, mesmo que não estivesse para todo o resto do mundo. Só que depois eu vi que não era exatamente isso que não deixava ele parecido com a foto, ou seja, bonito e interessante e com uma lata de cerveja na mão, mas sim o formato do rosto mesmo, que não era um formato de rosto muito bom de se apreciar. Isso nem sempre dá pra perceber na foto. Eles sempre dão um jeito de esconderem o formato do rosto quando o formato do rosto não agrada muito, principalmente nessas máquinas digitais que têm um photoshop dentro, como me disse a Jucilene depois. Mas mesmo com o formato do rosto desagradável e os dentes errados e fora do lugar, ele era um menino que dava pra chamar de bonito, dependendo do ângulo que você via, e eu disse isso pra ele, que ele era bonito do ângulo que eu estava vendo. Ele ficou corado e me disse obrigado e que eu era muito fofo, mas não gordo, e também muito bonito do ângulo que ele estava me vendo, que era o ângulo de quem está sentado do seu lado direito num sofá de dois lugares. Então ele se aproximou de mim e eu, que não sou bobo, nem lento, nem nada, percebi que o que ele queria comigo era outra coisa, então eu disse que eu não queria outra coisa com ele, mas só conversar um pouco mesmo. Ele fez uma cara sem expressão, como um presunto. E como ficamos muito tempo em silêncio depois da situação embaraçosa, eu achei melhor me aproximar dele e deixar que as coisas acontecessem, então. As coisas aconteceram. Primeiro no sofá, depois na cama, e depois no sofá de novo e depois no corredor. Passamos a noite juntos fazendo a coisa acontecer; e aconteceu até no dia seguinte, de manhã, quando eu estava preparando o achocolatado na cozinha. Quando ele foi embora, virou-se para mim e me disse alguma coisa sobre a minha companhia, ou sobre o meu corpo. Conforme ele se afastava, o formato de seu rosto se distorcia, e ia ficando cada vez mais bonito e bonito. Era, talvez, o homem mais bonito que eu já tinha visto a distância na minha vida.
testículos
27 de janeiro de 2010
Ao comer uma banana, agora há pouco, senti a falta de seus testículos em minhas mãos, sentadinhos. A banana sem testículos - e também a castanha de caju, o nabo e aquele menino que conheci no Glória – nos são apresentados assim, como se essa ausência não fizesse falta a mais ninguém. Tem que ser muito Taiane para pensar numa coisa dessas. Os testículos, além de deixar tudo mais descontraído, são ótimos para sabermos até onde podemos ir; nos avisa, em contato com as nádegas de outrem, que dali, meu senhor, não podemos passar. São os balões das festas infantis; toda criança quer pegar em um e dói na espinha, no clitóris, quando tentam estourá-los.
sexo sem compromisso
25 de janeiro de 2010
Sou adepto do sexo sem compromisso; é só não marcar nada com ninguém. Faço sexo sem compromisso em casa, sem hora marcada, de barba feita. Ninguém aparece. Não ofereço nada a ninguém e vamos logo para a cama – ninguém e eu - descompromissadamente. Gosto de ninguém comigo, se possível, teria ninguém comigo o tempo todo. Acontece que uma hora você tem que descer o prédio para pegar a pizza de marguerita, e o cara do capacete e bigodinho nunca tem troco para vinte.
a história do menino que estava sempre com ereção
21 de janeiro de 2010



Guy: Mas o que eu queria mesmo era uma esposa com barba.
Alex: O quê?
Edgar: Ele disse que queria uma esposa com barba. Não reparou que ele só fala em barba e em casamento, ultimamente?
Alex: Sim, e em maloca.
Guy: O problema é lavar a cueca do marido. Eu não lavo nem as minhas.
Alex: (levantando uma das sobrancelhas) Pensei que quisesse uma esposa.
Guy: E quero, uma com barba.
Edgar: Você podia escrever sobre isso, é a sua cara, Guy.
Guy: (passando a mão na cara, assustado) O que tem a minha cara?
Alex: Mas ele já escreveu uma história assim, de uma mulher que ganhou um amigo gay da colega da firma. Tinha barba e casamento na história, não tinha?
Edgar: (virando os olhos) Não tinha.
Guy: (cruzando os braços) Vocês confundem as coisas.
Alex: Ou era na história do paraquedista da Urca? Aquilo era um casamento, não era?
Edgar: Da Mallu e do Camelo?
Guy: Eu me casaria com a barba do Camelo.
Alex: (balançando a cabeça) Malu, Malu.
Guy: Mas casaria só pela barba, não pelo Camelo.
Edgar: O Camelo é peludão.
Guy: A gente torce pra isso.
Alex: (balançando a cabeça) Camelo, Camelo.
Edgar: Gosta das músicas do Camelo?
Guy: E Camelo faz música, é?
Alex: (balançando a cabeça) Guy, Guy.
Guy: Eu.
Alex: Não te perguntam se é “Gai” ou “Gui”?
Guy: Perguntam, eu respondo que tanto faz. Tomo uma limonada e respondo que tanto faz.
Edgar: O detalhe da limonada é importante.
Guy: Pára de usar expressões ridículas, Edgar.
Alex: Mas o certo é “Gui”, não é?
Guy: Sim, meu anjo, e você sabe disso. Mas eu gosto de deixá-los todos confusos. Vem, sente-se aqui.
Alex: Eu?
Guy: (olhando para os lados) É. Vem, sente-se.
Alex se levanta do sofá e senta-se no colo de Guy.
Guy: (passando a mão nos cabelos de Alex) Já lhe contei a história do menino que estava sempre com ereção?
Edgar: Por Deus! Quem é que usa “lhe” quando fala?
Guy: (com cara de boneca) Eu uso, tá! (voltando para Alex) Já lhe contei?
Alex: Não é a do Site Gay Gratuito, é?
Guy: (sorriso caquético) Não. É a história do menino que estava sempre com ereção.
Edgar: (empolgadinho) Conta, vai.
Guy: Bom, existia um menino que estava sempre com ereção. Ereção quando acordava, ereção quando dormia; ereção dentro de casa, ereção quando estudava. Os colegas da escola o chamavam de Pendura, porque gostavam de atirar objetos no pinto dele para ver se pendurava.
Alex: E quanto media?
Guy: (irritado) Não interrompe! O tamanho não importa, mas era entre um pinto grande e um pinto muito grande, porque quase tudo que os meninos atiravam realmente ficava pendurado no pinto dele. Bem, certa vez o menino chegou chorando em casa e disse que não agüentava mais aquele pinto duro o tempo todo. O pai ainda tentou mostrar o lado bom da coisa, disse que muitas pessoas gostariam de ser como ele, de estar no lugar dele.
Alex: É, ele tem razão.
Guy: Mas a mãe não gostou do comentário do marido e prometeu ao filho que encontraria uma solução ela mesma. Uns dias depois trouxe um pacote para o menino e mandou que ele o abrisse no banheiro. Eram revistas safadas, bem safadas. O menino nunca tinha visto aquilo e, conforme mudava de página, o pinto amolecia. Ele ficou muito contente, saiu do banheiro pelado balançando o pinto murcho na cara dos pais, cantando uma musiquinha. E, desde então, ele começou a ver revista pornográfica como se estivesse jogando um Nintendo DS. Levava para todos os lugares, todos os dias.
Edgar: História triste.
Alex: Mostra como somos dependentes de pornografia.
Guy: Não fala bobagem, Alex. A história não tem nada a ver com isso.
Alex: É o quê, então?
Guy: Chega. Se quiser me fazer perguntas, usa isto aqui.
quantos centímetros?
18 de janeiro de 2010
Não percebem, na verdade, que só sabem arredondar. Dizem que aquele ali só sabe comer e dormir, mas o que ele e todos a sua volta mais sabem fazer é arredondar. No currículo que mandam às empresas, arredonda sua sofrível compreensão de língua inglesa para avançada ou fluente; e para não ficar embaraçado com sua profissão de vendedor, diz trabalhar “com vendas”. Arredondam a altura e o peso; aumentam o primeiro, diminuem o segundo. Arredondam os centímetros, que costumam passar dos dezoito, e se você quiser tem uma foto dele, tirada de baixo pra cima - mas isso não é arredondar, é mudar o ponto de vista de quem vê, dizem. Quando são loiros, são arredondados para alemães, mesmo que apenas um terço da família tenha ascendência germânica; e ainda quando não têm, um cabelo um pouco mais oxigenado, sem cor, é naturalmente arredondado para alemão. As cores dos olhos são arredondadas para verdes - mas só dá pra ver no sol, sob determinado ângulo de luz e em determinado período do dia, que é sempre arredondado em quartos de hora, também. E não há problema algum para eles se assistiram a cinco ou seis filmes japoneses ou coreanos, pois eles dirão, com os pelos eriçados, que adoram o cinema asiático. Quando lêem cinco livros durante todo o ano, dizem, sem embaraço, serem leitores assíduos. Usam a palavra “assíduos” como se fosse uma cédula de dois reais, mas não passam, todos eles, de moedas trocadas. Chegam a ponto de arredondar, para cima, onde moram. Assim, quem mora em Carapicuíba reside em Osasco, e o que mora em Osasco reside em Barueri. O de Mauá é sempre do ABC. Não percebem, na verdade, que só sabem arredondar. Como comer ou dormir, arredondar, me parece, ser vital para eles.
de mãos dadas
14 de janeiro de 2010
Homossexualidade lícita veio ao mundo muito antes de Petrônio, e o Ministério da Saúde, naquela época, não tinha que advertir nada, nem meter o dedo imundo – e algumas vezes a mão inteira. Vi dois meninos de mãos dadas na Avenida Paulista e me lembrei de que caí nessa há uns oito anos, quando, enroscado, atravessei uma rua do centro velho fora da faixa de pedestres. Não sei de onde vem essa necessidade, a das mãos dadas, sei que não fica bem para quem a pratica, e você pode ter um ou dois úteros que isso não faz muita diferença. É coisa de shopping, de só estou dando uma olhadinha. As vendedoras ficam constrangidas quando não sabem a relação entre você e a pessoa que o acompanha, então aí até que funciona. Mas prefiro, por distanciamento, me ligar ao meu acompanhante; talvez por isso existam as palavras. “Estou bem” vale mais do que todos os dedos do mundo – e da Índia – juntos, entrelaçados. E você nem precisa usar aspas para dizer alguma coisa.
é difícil aprender a ser homem
12 de janeiro de 2010
É difícil aprender a ser homem, leva-se muito tempo. Para ser homem, precisa acontecer um desastre na cabeça da criança, que é educada pelos pais durante muitos anos para que esse desastre aconteça por si, de forma autônoma. Para isso, os pais – e talvez toda a sociedade - enfiam na cabeça da criança que certos comportamentos infantis precisam ser abolidos, de forma que seu jeito espontâneo, principal característica de uma criança comum, é o primeiro a ser reprimido, a ponto de tornar seus próprios filhos em pequenos homens mecanizados. Os gestos soltos e independentes dos meninos precisam se tornar rígidos e mecânicos. Os meninos, para se tornarem homens, precisam passar por uma mecanização completa, que começa em seus gestos e trejeitos. Para que o desastre aconteça por si na cabeça da criança, ou seja, para que elas se tornem pequenos homens mecanizados, todos os seus movimentos precisam, primeiro, passar por um processo de atrofiamento, ser reduzido a um limite mínimo antinatural. Com o tempo, o atrofiamento se estenderá à cabeça da criança, que nunca mais passará a ter um pensamento próprio, senão o pensamento de um homem mecanizado, que funciona com duas ou três engrenagens oxidáveis. Seus interesses, que antes eram as histórias de piratas, a extinção dos dinossauros e as localizações de ilhas remotas no mapa, deverão ser adaptados ao seu novo formato e, por isso, passarão a se identificar com o funcionamento de carros, motos, telefones celulares e outros tipos de objetos que funcionam artificialmente e que não possuem alma. O homem é uma forma de vida artificial que se move e pensa de maneira mecânica; para se tornar um, leva-se muito tempo, perde-se a alma e ganham-se muitos quilos.
amizade colorida e o exercício de corpo coletivo
9 de janeiro de 2010

O estudante estava certo de que participar de uma companhia de não-atores seria mais fácil; ele mesmo nunca tinha ouvido falar, por exemplo, que atores comuns – ou até atores de teatro – tinham, por hábito fauvista, acordar cedo. E com Amizade Colorida – autor e diretor da peça – não era diferente. Aos sábados, o estudante colegial acordava tarde, almoçava, e descia a rua para chegar à casa onde eram feitos os ensaios. Desta vez, naquele sábado gorduroso, ele chegou um pouco mais cedo, quando a sombra que cobre o quintal não tinha ainda um quarto do tamanho do horário em que ele costuma chegar. Um barulho surdo, mas que pode ser ouvido por todos – menos pelos surdos – atravessou o quintal na forma de uma campainha depois de uma tempestade, quando a queda de energia, por brincadeira ou flashmob, distorce o seu som.Seguindo aquele barulho, o jovem estudante de uniforme colegial chega ao quarto de um dos rapazes da companhia de não-atores, acreditando, de verdade, que os outros já estavam passando o texto ou aquecendo – em fogo baixo – as vozes. Mas foi na hora em que abriu a porta delicadamente – nem por isso afeminado – que viu Amizade Colorida lambendo as solas dos pés de um dos rapazes que moram lá, que, por sua vez, e fazendo acreditar que o ancestral do homem, um dia, usava os quatro membros para locomoção, chupava o garoto alto, magrinho, que beijava, então, o não-ator loiro à Bel Ami; todos, para quem não entendeu, sem roupa. Amizade Colorida, vendo que o estudante colegial chegara, sorri para ele e pede, usando a segunda pessoa do imperativo, para se aproximar. Mas como ele nunca participou dessas distrações pós-refeição, respondeu, corado, que precisava, primeiro, fazer a digestão. Amizade Colorida entendeu isso como timidez, porque nenhum garoto saudável e bonitinho como ele se recusaria a aceitar aquele convite com seis rapazes escolhidos a dedo e língua.
Amizade Colorida se levantou e se aproximou do estudante colegial.
- Vem, deixa suas roupas ali – apontando para um canto com roupas.
- Mas tem a digestão. – respondeu o estudante de uniforme colegial, tremendo.
- Eu não acredito em digestão. Vamos, para com esse papo e vem. Você vai ver como vai ajudar no entrosamento com os outros não-atores. Entenda isso como exercício de corpo, porque é isso que é.

O estudante não tinha muitas opções, pelo menos sua mente subdesenvolvida e pouco criativa não lhe ofereceu nenhuma. Ficou pelado assim, num estalo de dedos. Amizade Colorida se animou; era nítida sua animação circuncidada crescendo.
Tomando-lhe pelos pulsos, posicionou-o na ponta da cama.
- Entenda isso como exercício de corpo – repetiu Amizade Colorida duas ou oito vezes no ouvido dele, mas não muito baixo.
Enquanto os outros não-atores, nas suas costas, praticavam o exercício de corpo coletivo, desinibidos, o nosso estudante colegial – porque agora ele era nosso – era conduzido por Amizade Colorida, que lhe dizia no ouvido, mas não muito baixo, o que ele deveria fazer.
- Olha lá, o loirinho só está sendo chupado nos mamilos pelo careca. Sabe o que você faz?
Com timidez e pés gelados, o estudante colegial atravessou a cama engatinhando, arrastando-se por cima de corpos suados, até chegar no loirinho à Bel Ami; este, abrindo-lhe um sorriso pomposo, pediu, com duas palavras e meia, que o chupasse. O estudante colegial o chuparia; todos ali o chupariam; eu, você e aquele cara ali também, mas alguma coisa o impediu. E não era um pensamento, ou culpa, antes que você levante a mão. Era Amizade Colorida. Nada bobo – fora seu cabelo amarelo que não conta – Amizade Colorida o agarrou por trás, se é que vocês me entendem. No meio caminho entre duas bundas conflitantes e o membro eriçado do loirinho à Bel Ami, o estudante colegial foi agarrado por trás – e com jeito, e com pegada, e sem dó – por Amizade Colorida, devidamente encamizadinho. Não preciso falar – e ainda assim insisto – que eles foram o centro da atenção. Uma rodinha se formou em volta dos dois. Ao que parece, todos queriam se entrosar com o estudante colegial; e quando um membro de uma companhia de não-atores quer alguma coisa, é difícil não ceder. O estudante colegial cedeu, a todos eles.
Depois de tomarem um banho gelado, o grupo de não-atores passou o texto. Se tudo der certo mesmo, eles se apresentarão na escola do estudante colegial em breve.
amizade colorida e o exercício de corpo coletivo
2010-01-09T11:08:00-02:00
Guy Franco
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pedofilia ao contrário
6 de janeiro de 2010
Pedofilia é natural; pelo menos a pedofilia ao contrário. Quando eu tinha dez anos, meu cabelo já ficava duro por um tiozão. E a criança tem o seu jeito de levantar a saia para pedir carona também; o meu era a minha discrição, ficar quietinho jogando Alex Kid. A destreza das mãos é o que nos diferencia das lebres e dos aparelhos telefônicos, principalmente na arte cubista da sedução. Combina o polegar e o indicador com uma piscadinha numa boate para você ver; levante o maior-de-todos para quem lhe interessa acordar junto no dia seguinte. Mãos, delicadezas de onde extraímos a essência do chocolate que derreteu. E criança não é maliciosa, mas tem pipi. Mas até hoje eu só consigo chupar os meus dedos mesmo.
a pior companhia
4 de janeiro de 2010
Não conseguem ficar sozinhos esses homens, nem para ir ao cinema. Esses homens que não conseguem ir ao cinema sozinhos sofrem do coração antecipadamente, têm a vida reduzida, mesmo que dêem uma corridinha em volta do quarteirão onde moram, todos os dias, de manhã bem cedo. Eles não sabem o que fazer quando estão sozinhos e por isso não gostam de ficar sozinhos. Quando estão sozinhos, pensam, e pensar é algo que eles não sabem fazer. Preferem uma companhia, mesmo a desagradável, pois quanto mais desagradável for a companhia, sabem, menos tempo eles terão para pensar, e menor a possibilidade deles suportarem a sensação desagradável de pensar e de estarem consigo mesmos. É mais fácil suportar a companhia de uma pessoa desagradável comendo pipoca ao seu lado no cinema do que tolerar pensamentos confusos quando se está sozinho, no escuro, com a janela fechada e a televisão desligada. Esses homens não conseguem deixar a televisão desligada. A mais desagradável das companhias, que são as companhias dos apresentadores de auditório e os âncoras dos telejornais, são mais toleráveis do que agüentar a si próprio. Esses homens são as piores companhias que eles têm no mundo, sendo que deveria ser justamente o contrário, pois ninguém é capaz de viver em sua ausência. A própria companhia deveria ser a melhor companhia que têm, ainda melhor do que a companhia do melhor amigo ou do melhor amante, pois estes não estão disponíveis a todo o momento. Esses homens que não conseguem ir ao cinema sozinhos são as piores companhias que eles têm.
homem maduro
31 de dezembro de 2009
E a gente nunca sabe direito quando seremos um homem maduro também. Queria estar acordado nesse dia – tornamos-nos maduros durante a noite, entre às três e às quatro e quarenta da madrugada. As minhas costas se encurvariam, de súbito, e eu enfiaria a minha cara no livro que estaria lendo – Jorge Luis Borges, provavelmente. Ao me recompor, como se, frustrado, desdobrasse a orelha de uma página da revista Contigo, o jardim de veredas, além de bifurcado, estaria distorcido e desfocado, e eu teria de me levantar, mesmo com a forte dor nas costas, para procurar os meus óculos.
homem maduro
2009-12-31T11:55:00-02:00
Guy Franco
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as coisas não acontecem
28 de dezembro de 2009
Sou especialista em fazer as coisas não acontecerem. O mundo contribui. Nada acontece, só algumas festinhas e os prazos para entregar os trabalhos a tempo. Trabalho, logo, não existo - disse um senhor aí, sentado no meu ombro, apoiado na minha orelha, agora. Às vezes tenho um namorado e fazemos as coisas não acontecerem juntos. Levo meu namorado ao Vegas ou ao Relíquias e fazemos as coisas não acontecerem lá, na frente de todo o mundo mesmo. Como os meus namorados não costumam gostar de “a três”, dispensamos os ativos circulantes com dinheiro em caixa. É duro, mas tem que ser duro para poder entrar direito. Nem sempre essa habilidade – ou talento, como aquela ali preferir – funciona. Algumas coisas acabam acontecendo, sem intenção. Outro dia, no banho, algo aconteceu. E quando uma coisa acontece quando você está pelado, corre o risco de pegar uma friagem, um resfriado qualquer.
presepada
25 de dezembro de 2009
É que eu não sei escolher presentes. Eu daria livros a todos, - acho que só sei dar isso - mas depois - num sonho - eu vi que não seria possível, e que links divertidos, quem sabe, devia servir. Feliz!- Woody Allen já nos advertia sobre a existência do passivo agressivo.
- Mas ele é gay! Eu sei que este video é velho, bem velho, e que tem até várias paródias em cima dele, mas eu sou atrasado mesmo e só vi agora; e gosto.
- A versão de Chistopher Walken e a versão de Jude Law para Poker Face, daquela mulher.
- Ainda no segmento demência musical, gostei muito disto aqui.
- Quem quiser me dar presente. Aceito também esta carteira.
- Aqui um teste muito importante para saber se o seu filho é gay.
- E este homenzarrão que me faz rir?
- Talvez, talvez, este seja o vídeo que eu mais gostei do ano.
porque não gosto de comprar roupa
22 de dezembro de 2009
Gostaria de uma calça contemporânea ou uma não-calça, você tem? Ela não entende, na M. Officer ou na Levis tem calça jeans, bermuda jeans, mas uma não-calça, veja bem, era a primeira vez que pediam. “Eu posso lhe arrumar uma calça contemporânea, é bem moderna”. Não quero uma calça moderna, quero uma contemporânea, moça; na verdade uma não-calça é o que eu mais queria. Uma não-calça jeans. “Não tenho, vou ficar devendo”. Naquelas lojas só vendem calças, a não-calça era contemporânea demais para ser pendurada em cabide.
a morte do baladeiro de plantão
20 de dezembro de 2009
Morre, aos trinta e dois anos, (com cara e mente de dezesseis) o baladeiro de plantão. Deixa dois filhos e um maço de cigarros. Em seu twitter, suas últimas palavras: “kkkkk SHOW!!! Caraca mlk, o velho e bom los hermanos tão de volta!!!”.
a morte do baladeiro de plantão
2009-12-20T12:57:00-02:00
Guy Franco
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será que eles sabem de mim?
17 de dezembro de 2009

Será que na empresa eles sabem de mim? A Carla com “cá”, a oxigenada (e oxigenária), veio me dizendo que o Rodrigo me achava um pouco esquisito. Sabe como são essas tranqueiras da contabilidade quando estão juntas, se repelem, então ela veio direto em mim, pra contar tudo. Mas entenda, ela detesta fofoca. Ela é o tipo de gente que vai à churrascaria com sujeitos que têm carro; o tipo que lhe pergunta, como se sambasse, se você já leu todos aqueles livros da sua prateleira, porque ela mesma nunca teve esse tipo de educação em casa, mas ela sabe (ah, sabe sim), que o mais importante é a educação e estar de bem com a vida, em primeiro lugar, atchim. Desculpa. Se é de esquisito que eles estão me chamando, então é veado que eles têm na cabeça e na parte mais amarga da língua. Pela natureza das coisas foi sempre assim. Darwin estava certo em relação aos veados de Galápagos. E o Pernalonga era muito mais engraçado nos anos quarenta. Se eu tenho tantos livros assim na minha prateleira, queridinha, é porque eu não como em rodízio de carne, agora aceita um café? “O Rodrigo disse, juro, com todas as letras. Não está mais aqui quem falou”. Claro que não, agora está na máquina do café, com as duas meninas do “erre agá”. Elas balançam muito quando falam e ainda mais quando falam de mim. Mas não é fofoca, viu. São bonitinhas, de repente apetitosas, não sei, sou esquisito mesmo (mas assumo). Vai ver sou o único que não deu em cima delas, e isso é de uma veadagem tão grande que está começando a chamar a atenção do gerente universal – o G.U. Outro dia, na reunião, ele se mostrou atualizado com esses assuntos de diversidade sexual. Que enfiem no G.U, a diversidade sexual! Ocupe-se com os lucros da empresa, imbecil amarelado!Vamos falar de diversidade.
Eu gostaria de falar em diversidade usando uma frase que eu li numa revista de celebridades: “Sandy montou um cabelo lindo semipreso” - desculpe se eu estou aborrecendo com isso, mas eles estão desconfiados de mim, e eu não sei mais se mijo no mictório ou dentro da cabine do banheiro da empresa, entende o meu drama? Se eu mijar na cabine, posso descobrir do que eles me chamam por trás. Não são somente as mulheres que fazem fofocas e retocam a maquiagem, lindos rapazes. Quero mijar em paz, sem que me metam o pau por trás. Ainda que visualmente seja uma idéia excitante (e talvez por isso mesmo eu não mijo no mictório, pra não perder o emprego). Cansei, agora quero ser engolido.
será que eles sabem de mim?
2009-12-17T11:28:00-02:00
Guy Franco
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Malu Malu
10 de dezembro de 2009
Outro dia vi as sobrancelhas de Malu Mader passeando no Shopping Ibirapuera. Estavam sozinhas, as duas, comendo um temaki na praça de alimentação, levemente disfarçadas, e aparadas nas pontas. Quase não reconheci, mas uma delas – não me lembro qual – virou para a outra e disse, cutucando o wasabi com os palitinhos para ver se se mexia, que não agüentava mais a mamãe – é assim que elas chamam a Malu – com o Bellottão. Reclamavam que Malu e Bellottão, de um tempo pra cá, não se desgrudavam mais, e isso, cedo ou tarde, ia sobrar pra elas, “ou você acha que essas férias coletivas que ela deu pra gente, pras Silas, pra Gina, quer dizer o quê?” Batata. Duas semanas depois, numa mostra redonda de cinema, Malu apareceu com sobrancelhas nitidamente terceirizadas. Não, não pegou bem. Revistas sensacionalistas, blogueiras lésbicas e leite de coco, por que não, caíram em cima dela, fraturando duas de suas delicadas e peludas costelas. As antigas sobrancelhas voltaram a trabalhar pra Malu e não duvido que tenham ganhado abastada indenização por danos morais, embora as sobrancelhas, principalmente a da direita - da minha, não da sua - fosse ligeiramente retardada e possa ter aceitado de bom grado qualquer proposta da mamãe.
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